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banalidades

por M.J., em 28.09.17

creio que o momento em que perco mais facilmente a perspectiva é à noite.

não faz sentido, eu sei, mas chega a um certo ponto, quando o dia acabou mas ainda não acabou e há horas e momentos que posso preencher e perco a noção da realidade e do tamanho das coisas a que me propus.

tudo me parece de uma inutilidade extrema.

seria nesse momento, noutras alturas da vida, que saíria de casa numa demanda de encontrar quem sou. procuraria nos outros. olharia pessoas, gente e questionaria se a parte de mim que me falta e não reconheço poderia ali estar.

nunca estava. não está. nunca estará. 

 

tive sempre - talvez devido a livros e filmes e séries e novelas consumidos em miúda - a ideia de que a minha vida seria muito maior.

eu sabia, antes da gente da minha idade se questionar sobre isso, quais seriam os meus feitos. e tudo era aguentado e suportado porque na imensidão dos dias, dobrados e triplicados no silêncio das árvores, havia o amanhã.

havia a data.

havia o dia dos planos em concretização.

pois nenhum se concretizou. ou melhor, tendo-se concretizados alguns, foram os menos agradáveis, os que menos prazer me deram, os que me trouxeram até dissabores.

como que se o caminho que eu trilhei, na imaturidade de quem não pode - por mais que queira - saber das coisas, fosse todo ao contrário, desajustado à pessoa que eu era e sou para ser bom à personagem que eu achava que seria e serei.

 

é à noite que tenho mais tempo para pensar. equacionar os pontos e falhas e momentos da vida que são os meus mas que me parecem de outro. 

de manhã a vida recomeça.

tomo pequenos almoços longos, rego as plantas e avalio o dia, no clima dos idosos. hoje vai estar quente, penso, mesmo que só haja nevoeiro. porque há nevoeiro nas sardinheiras e numa suculenta que morre lentamente num vaso.

há café e sol por trás da névoa.

e penso hoje vou ser melhor. e decido hoje vou fazer isto. e aquilo. e aqueloutro.

e depois, à noite, sentada na imensidão das horas constato que não fui, nem fiz isto, aquilo, aqueloutro.

 

todos os dias da minha vida são o falhanço das expectativas que não controlo.

e, por consequência, da pessoa que eu sou. 

isso faz de mim uma falhada, não é mesmo?

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oh vai ver ali:

publicado às 09:45


5 comentários

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De Outra a 28.09.2017 às 10:23

Sempre ouvi dizer que a expetativa é a mãe da ilusão...embora saiba (por mim mesma) que tenho expectativas enormes (e irrealistas) sobre tantas coisas...
Tenho aprendido a ir nivelando as expectativas, mas não é fácil.
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De Gaffe a 28.09.2017 às 10:40

Não. Não faz de ti uma falhada.
Faz-te igual a mim.
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De M.J. a 28.09.2017 às 10:46

oh... estou tão longe disso. és tão mas tão melhor do que eu. em tantos, tantos aspetos...
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De Quarentona a 28.09.2017 às 12:22

Não faz de ti uma falhada, pelo contrário, faz de ti uma vencedora quando tens essa capacidade de auto-análise e auto-crítica que tanta falta faz a muitos que passam pela vida sem terem a mínima noção do quanto andam aqui a incomodar.
Essas tuas expectativas são comuns às minhas, mas eu sou uma tola que evito pensar à noite no que deixei por concretizar, olha, vejo novelas e vagueio nas futilidades do Facebook.
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De Olívia a 29.09.2017 às 12:48

Não.
Faz de ti alguém que tenta. Que recomeça. Que não se conforma.
Uma pessoa resiliente.
:)

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