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banalidades

por M.J., em 22.11.17

peguei na minha agenda pirosa e observei os dias.

ainda ontem era agosto - e andava a passear, numa despreocupação de cabelos ao vento - e estamos praticamente no final de novembro.

são estas constatações que nada dizem que me fazem os dias. 

o tempo corre e não corre, numa dualidade que nem sempre consigo entender e eu vou ficando para trás. 

 

alinhei, muito alinhadas, as tarefas do dia que me escapam, ou que queria muito adiar, e planeei semanas.

sei que há gente que detesta este planeamento mas de outra forma é impossível estar com certas pessoas, fazer certas compras, ir a certos sítios e ler certas coisas.

as horas fogem-me das mãos - contrariamente a outros anos - e se não me organizo as semanas transformam-se em meses e eu perdi coisas na procura de outras.

agendei na tradição quando faremos a árvore de natal. pus de lado a outra tradição do bolo-rei, trocada por uma ida à madeira, de pouquíssimos dias mas que servirá para respirar outros ares e fazer uma pausa da correria dos dias. 

 

depois de alinhar palavras, bebi um copo de água e fui à varanda.

o dia está cinzento, corre um outro carro na rua e há um vento que anuncia chuva que não vem.

estendi uma máquina de roupa, na banalissima tarefa doméstica que me lembra do meu TOC (pequenino), e me faz alinhar roupa por tamanhos e cores, com molas das respectivas tonalidades, à mesma distância e medida. não suporto que a empregada o faça porque não respeita aquelas que são, na minha mente, regras universais e impossíveis de ser quebradas. 

 

tenho estas minudências que nem toda a gente entende e que fui percebendo com os anos.

dão-me comichão no cérebro se não praticadas.

como deixar sapatos fora da sapateira, andar pela casa com os calçado da rua ou deixar chávenas de café fora do sítio. não sou paranóica mas preciso de respirar fundo e não enfiar uma caneta até ao cérebro para coçar a comichão que aquilo me provoca.

também não consigo dormir com louça por lavar, as almofadas do sofá fora do sítio ou acordar de manhã e não abrir a janela, nem mais nem menos do que a distância que já sei de cor. 

herdei estas coisitas da mamã. ela, por exemplo, não consegue ver um tapete fora do sítio ou um vidro sujo. faz parte de quem é.

eu julgara que não era assim até perceber as minhas coisas: como não suportar deixar estragar alimentos, mesmo que perca tanto tempo a tratá-los que acabam por ficar mais caros do que se comprasse outros. como todas as castanhas que se iam estragando e eu descasquei-as, uma a uma, descartando as estragadas e congelando as outras. e a irmã do rapaz, quando soube: credo que seca, mais valia comprares. e eu, os ombros encolhidos, na aprendizagem que não se diz tudo o que se pensa ou, corremos o risco de passarmos por fedelhos irritantes.

 

estendi roupa, numa obra de arte simétrica, e reguei plantas.

costuma ser a pausa das onze, em horários a cumprir para me mexer.

trabalho com concentração e esqueço que sou um corpo mais do que mãos e olhos e quando dou conta estou rígida faz horas, sem mexer um músculo que não os essenciais ao trabalho.

nessas alturas estico-me e é como se mil alfinetes me apertassem as articulações, rígidas da múmia em que me transformo.

instituí por isso o regime das pausas e tem corrido bem.

 

reguei plantas e tomei um café.

alguém abriu uma persiana no prédio e o som espalhou-se pela rua e pelo monte, como num eco de lembrança. tirei as folhas secas de uma sardinheira. aparei a salsa, os oregãos e o cebolinho, na mini horta de uma prateleira da varanda. 

voltei ao trabalho vinte minutos depois.

agora, é quase hora de almoço e a manhã já se foi.

os dias fogem-me na pressa das horas e não sei onde vão ficando.

mas as plantas estão viçosas, a roupa está milimetricamente estendida e avancei mil tarefas de trabalho que estavam pendentes. 

 

o tempo não é meu mas tenho-o transformado em pedaços de algodão doce. 

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oh vai ver ali:

publicado às 12:40


7 comentários

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De Gaffe a 22.11.2017 às 13:52

Os quadros. Não consigo ver um em desequilíbrio. Vou acertar, nivelar e arranjar. É medonho, porque mesmo nas casas alheias reparo nos quadros que estão tortos. Deixo de ouvir as pessoas. Só me importo com aquilo e com a vontade indomável de ir colocar tudo direito. Nessas alturas o tempo parece lama.

O meu tempo é tão triste quando não te posso ler, como um quadro errado.
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De M.J. a 22.11.2017 às 14:22

os quadros tortos, esqueci-me dos quadros tortos.
aqui em casa temos poucos, mas há uma ou outra fotografia que sim, alinho. em casa alheia não o faço mas faz-me comichão no cérebro também.

gosto de ti.
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De Quarentona a 22.11.2017 às 14:42

Sou como tu no estendal da roupa e na relutância em deitar comida fora, junto ainda o não suportar ver torneiras a pingar e luzes acesas sem haver necessidade... ah, portas e gavetas abertas dos armários também é coisa para me fazer comichão no cérebro :)))
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De Cristina M. a 22.11.2017 às 14:52

a última frase do texto é tão tão carinhosa...
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De Anita a 22.11.2017 às 15:44

Como entendo o estender da roupa, eu também tenho manias com isso. E, ai de quem se atrever a me estender a roupa...
... manda a caneta parta eu coçar o cerebro
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De Fleuma a 22.11.2017 às 16:42

E afinal, deixou sequer aflorar o pensamento e dúvida, sobre o sentido deste blog?

Para quem tivesse uma sombra de dúvida, estas palavras não deixaram pedra sobre pedra.

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De Joana B. a 24.11.2017 às 10:42

O tempo passa a correr, tenho tantas coisas para fazer e não tenho tempo...
Tenho que começar também a fazer as pausas

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