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banalidades

por M.J., em 29.01.18

o facto de hoje ter amanhecido soalheiro fez-me sentir, contrariamente ao expectável, um pouco menos melancólica, pessimista, chateada com a vida em geral e sem a aura negra que me acompanhou grande parte de janeiro. 

tomei o pequeno almoço com vista para a planta que uma das pessoas que mais amo no mundo me deu no natal.

o sol entrava a jorros pela cozinha e inundava de luz o chão e as paredes, as plantas e as chávenas, que pendurei de jeito pouco artístico.

estendi os pés em direcção à janela e fui mordiscando torradas enquanto continuava na leitura do terceiro livro deste ano.

 

quando fui à varanda, ainda de robe, as plantas dançavam nos vasos, a roupa bailava no estendal e o vento revolveu-me os cabelos.

é segunda feira, há um cheiro a novo no ar.

mas tenho saudades do ar da praia, das caminhadas no paredão, dos miados das gaivotas. tenho saudades da pastelaria do bairro, das cadeiras e das mesas alinhadas pela calçada e os velhos que se reuniam todas as manhãs em conversas infindáveis. tenho saudades do cão que aditou o dono e que fazia uma ronda matinal pelo bairro. tenho saudades da árvore que entrava quase toda pela janela da sala, mesmo em frente à varanda, os raios de sol que batiam no chão fazendo desenhos. tenho saudades das pessoas que faziam parte dos meus dias. tenho saudades da cidade e do que deixamos, mesmo aqui ao lado, como se estes três anos tivessem sido num país distante, longe de tudo, ainda que possamos, inacreditavelmente estar longe de tudo mesmo a poucos quilómetros. 

e agora que é certo voltarmos, e antevejo já os miados das gaivotas, o mar no inverno, o vento agreste, as glicinias floridas, os lanches ao fim da tarde, sinto saudades da melancolia das manhãs aqui, da vista sobre os cedros, das luzes, do cantar das rolas, da ausência de barulho, da louca que passeia os cães gritando pela rua. 

 

a minha vida é um corropio de mudanças banais.

pequenitas.

sem grandes coisas.

sem nada que se veja ou diga.

e no meio desse nada - que faria rir às gargalhadas amigos que passeiam pelo mundo e habitam cidades no outro lado do planeta como quem vive na aldeia onde nasceu - há uma sensação de tragédia grega que impregno a tudo, como um cheiro a bafio e mofo, a naftalina e a medo.

 

só estou bem onde não estou. 

e não é apenas um desabafo.

é uma constatação. uma certeza. um mantra que me guia nos caminhos.

é tão ridículo ser eu. 

 

 

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publicado às 10:11


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