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banalidades

por M.J., em 06.02.18

esfrego as mãos geladas e procuro conforto numa chávena de chá a ferver.

o frio percorre a varanda, inunda as árvores e torna hirtas as roupas, estendidas no varal, na procura de um pouco de calor.

arrumo botas e procuro meias quentes. tomo um café ao sol, depois de almoço e percebo que não disse hoje uma única palavra.

as palavras que me rodeiam são gritos no meu cérebro, silenciosas na minha voz, como que se fosse desnecessário o seu uso.

recolho roupa e acendo uma vela.

as mãos frias permanecem geladas e planeio boicotes à vida, que não digo mas enumero, muito rapidamente, na voz da minha cabeça.

 

as plantas permanecem alinhadas.

há um cheiro a jasmim nos corredores e livros esquecidos pelos cantos. 

estou em casa e sinto saudades de casa.

penso na minha cama, o saco de água quente que a mamã me levava, o seu passo pelas escadas, as suas mãos nas minhas costas, a roupa aconchegada, os lábios na minha face.

recordo os pés em botas novas a calcar o gelo das manhãs, as ervas quase mortas do frio que as tornava rígidas e brilhantes.

recordo a lareira acesa, a lenha a crepitar, o cheiro a sopa e a marmelada, os vidros embaciados e vozes de pessoas a falar coisas que eu julgava inúteis, perante o meu revirar dos olhos atrás dos livros.

 

um dia vou ficar calada o dia inteiro, pensava. vou afastar-me do mundo e arranjar maneira de viver sem a necessidade da convivência com o outro, pensava.

pensava.

sem saber que um dia teria a possibilidade de fazer do dia o dia à minha maneira. 

o único problema é que nunca quero o que quero e o dia que quis ontem é um outro que já não quero, quando o tenho hoje.

está frio.

tenho frio. 

não há aquecedor que resolva.

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publicado às 13:50



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