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banalidades

por M.J., em 16.03.18

quando a vida me bate com muita força e o meu cérebro se alia a essas circunstâncias para me deixar num estado de auto-comiseração e lástima, troco meios serões por meias manhãs.

ou meias manhãs por meios serões.

não é difícil quando temos a possibilidade de fazer os nossos próprios horários, conseguimos marcar reuniões - seja presenciais, seja online - para horas menos matutinas, organizar prazos e comunicações e continuar a trabalhar depois do jantar, noite dentro.

não digo que seja melhor.

em boa verdade, não é.

essa troca de ritmos e horários deixa-me mais molenga e exausta, confunde as horas e os momentos. mas, conhecendo-me vai fazer trinta e um anos descobri quais as estratégias que funcionam comigo e o que posso e devo fazer para enfrentar os dias.

 

sou dotada de um traço depressivo (ou personalidade. ou feitio. ou maneira de ser. ou defeito. ou o que se quiser chamar) que me faz sempre ver o copo meio vazio e, em alguns dias, sem água alguma mesmo que chova a potes.

 

é nesses dias, sobretudo, que levantar de manhã é uma tortura.

e nem sequer está relacionado com o sono, a vontade de ficar no quente dos lençóis ou a preguiça.

é somente a total incapacidade de passar de um estado de pausa na vida para o pleno do dia.

para tomar decisões.

para prosseguir com os minutos.

para encarar quem sou, onde estou e para onde vou.

essa necessidade que nos faz quem somos, esse imperativo que é sacudir os lençóis, tomar um banho e pôr a máquina a funcionar de maneira a levar as coisas em frente não é - em alguns dias - algo que consiga fazer como o comum dos mortais.

 

nesses momentos a única solução é adiar o óbvio, ficar muito quieta olhando o tecto, contar muitas vezes até dez e dizer a mim própria, numa espécie de lista mental, todas as tarefas mais básicas que farei, nos dez minutos seguintes a estar levantada.

resulta porque começo a transformar o turbilhão de pensamentos soltos no meu cérebro em planos concretos, que posso assinalar à medida que vou cumprindo, como se cada tarefa tão básica que uma criança de dois anos faz sozinha, fosse uma conquista maior do que algo que tenha conseguido na vida.

 

normalmente a sensação de absoluta inércia e angústia e inutilidade e ansiedade - e todas essas coisas que os sortudos da vida não sentem - acaba por acalmar depois do pequeno almoço.

o cheiro do café e das torradas tem propriedades calmantes e a capacidade de suavizar pensamentos e emoções que, juro, não têm qualquer razão de ser que não o facto de habitarem mim. 

beberico café aos golinhos, como um alcoólico cura a ressaca com álcool.

vou à varanda, olho o dia e digo a mim própria que é menos um.

rego uma planta, mesmo que esteja já inundada e, se houver roupa no varal, encosto-me na procura do cheiro a amaciador e a flores. 

 

depois disso, a corrente lastimosa é quebrada e torno-me meia normal.

dou seguimento a coisas, bato com força no teclado, atendo telefonemas, resolvo problemas, cumpro prazos e objectivos.

às vezes paro para olhar pela varnada do escritório onde as árvores, em frente, dançam a mesma dança rotineira desde que para cá vim.

em dias de vento, como estes últimos, gosto de sair para me sentir viva, mesmo que saiba, muito por dentro, que provavelmente sou daquelas pessoas que nasceu já morta e que, se me descuidar, consigo trazer para isto quem me rodeia.

não o digo a ninguém, no receio que a vida me trouxe de concretizar em palavras os medos obscuros. 

 

e à noite, quando me deito, esgotada de uma luta mental que domino, finjo que não sei já tudo o que terei de fazer, no dia a seguir, para poder prosseguir com os minutos. 

é que juro, tenho a certeza, alguns deles colam-se em mim e param o tempo.

 

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publicado às 13:42


1 comentário

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De Fleuma a 16.03.2018 às 16:45

Duas coisas que acontecem sempre, mas sempre, que leio esta escrita:


Concluo que a M.J. pertence a uma elite de pessoas que consegue silenciar-me; simplesmente porque não existe alternativa ou argumentos para emoções.

E depois, desculpe a comparação, sinto-me profundamente fascinado pela forma maquinal como consegue elaborar jogos de cintura para evitar momentos mais negros. Esta é uma impressão muito presente em quase tudo o que aqui leio. Tem tanto de fascinante como intrigante.

Saúde,

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