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banalidades

por M.J., em 06.04.18

estive em lisboa nos últimos dias.

aproveitei o hotel pago do rapaz devido às mil reuniões dele, colei-me que nem uma lapa à possibilidade de ir também e passei o tempo em que ele trabalhava entre almoços (no singular) com a magda, passeatas junto ao tejo, horas de sono numa cama gigante, banhos longos com muita espuma (nunca tinha entendido o objectivo da coisa até decidir apostar num. ou dois. ou três) e jantares em tascas.

foi bom numa pausa mais do que merecida para respirar, depois de uns dias azedos de auto-comiseração, hormonas infernais e sensação de falhanço total. 

 

lisboa, no entanto, não consegue deixar-me com vontade de lá passar mais do que dois dias.

lisboa provoca-me sensação de claustrofobia, por muito grande que seja, em prédios, pessoas, calçada à portuguesa e um trânsito infernal, de apitadelas constantes quebradas pelo barulho de sirenes e aviões. 

não consigo sentir-me em casa ou achar que poderia ser ali minimamente feliz.

mesmo num bairro do bem, com betos que tocassem piano e dançassem balé, calçados com sapatos de vela e cabelo ao lado. 

em lado nenhum, na verdade.

 

olho para a maioria das casas, umas em cima das outras, muito alinhadas, todas juntas, numa espécie de gaiola que não termina e penso quantas vidas ali estão alinhavadas, ao monte, numa privacidade que não existe, numa corrida qualquer de gente e vidas e constante atropelo.

entro no metro, num empurra e foge em hora de ponta, um cheiro que não termina a gente e odores maus, a necessidade de me agarrar a mil bactérias de mil mãos que ali se agarraram e tenho tremeliques, soltando na minha voz serrana interior um muito alto e histérico:

deus me livre e guarde, pelas alminhas!

 

e de todas as vezes que ali vou, ou a outras capitais europeias, sinto na pele todos aqueles ditos que me foram inculcados quando crescia:

quem nasce lagartixa não chega a jacaré;

não chegarei, jamais.

 

o meu corpo grita por casas perdidas em curvas apertadas.

por longos silêncios, por gente parca em conversas e bons dias a todos.

por fruta colhida no quintal, batatas e cebolas vindas da terra do lado e uns quantos frangos ao fundo a fazer companhia a um porco.

quem sou espera por gatos à dormir à sombra de árvores que são minhas e não de todos, em parques de cidades povoados de cocós de cão, agora mais na moda que a própria moda. 

a minha alma grita pelo sino da igreja a marcar o compasso das horas, pelo som dos grilos a avisar que é verão e pelas rolas na cerejeira do vizinho a lembrar-me que estou viva.

mesmo que não haja teatros, turistas, metros, centros comerciais e mil hospitais. 

mesmo que demore horas para ter acesso ao que se poderia aceder em segundos.

 

não sou, não fui, não serei de cidade.

e anseio pelo dia em que regressarei a casa.

mesmo que, durante anos, tenha achado que aquela nunca poderia ser a minha casa. 

 

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publicado às 18:30


4 comentários

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De Happy a 06.04.2018 às 18:40

Entendo-te. Também eu há anos resolvi sair da cidade grande. Mas não fui como tu. Vim para uma cidade pequena, mas ainda assim uma cidade. Não sei se conseguiria viver sozinha assim no meio do nada. Não pela companhia, mas pela possivelmente falsa insegurança...

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