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banalidades

por M.J., em 31.07.18

é engraçado o tempo. 

num dia temos vinte e poucos anos, somos jovens e a vida estende-se com todo o tempo possível numa espécie de caminho sem curvas, há um vento fresco com cheiro a maresia a revolver-nos os cabelos, promessas de juventude eterna, dias longos e novos e, noutro dia, quase sem darmos por isso, estamos sentados a desfiar memórias, como se a vida nos tivesse fugido pelas mãos e quem fôramos não é quem somos.

 

o regresso a casa, na casa nova que estamos a comprar, em burocracias e pequenas coisas, foi - como são todas as mudanças na minha vida - e está a ser um processo complicado de adaptação.

as hormonas não ajudam e há um pequeno nervosismo à flor da pele.

às vezes vou à varanda aqui de casa ver a lua ou as flores ou simplesmente ouvir o silêncio da noite cortado pelas cigarras e os grilos e penso se não terá sido esta a minha verdadeira casa, a dos dias serenos, a do vento a bater nos cedros, a do canto das rolas, a do recomeço mesmo que não haja recomeços.

 

o medo de arriscar, sempre presente em mim como uma espécie de tatuagem é tão forte que não dormi no dia em que fomos assinar o contrato promessa.

era sábado e saímos daqui cedo.

tremiam-me as pernas e os braços.

uma infinidade de dúvidas.

os permanentes e "e ses".

entrámos na cidade: está diferente e igual ao dia em que a deixamos.

não apreciei as gaivotas, o azul do céu ou o amanhecer tranquilo. o medo. as saudades de uma casa de onde ainda não saí. as inseguranças do amanhã. tudo junto misturado com hormonas, a sensação de fracasso ainda que, sejamos francos, fosse sábado de manhã e não houvesse nada a fracassar. é o começo. o recomeço ou a continuidade da vida como a fazemos.

 

quando saí do carro cheirava a mar e havia vento. 

o meu vento.

um vento fresco que revolvia os cabelos, batia nas folhas das árvores e trazia com ele o mesmo impacto que me trouxe há cerca de nove anos atrás quando cheguei sozinha pela primeira vez aquela cidade pronta para começar a vida como a tinha imaginado.

o mesmo vento que me acompanhou nas noites mais incertas, perto do mar em turbilhão de certezas de fim.

o mesmo vento que batia nas ramagens das árvores em frente à janela da sala onde demos o primeiro beijo.

 

o mesmo vento que, não falando, me dava as boas vindas a casa e me fazia lembrar daqueles dias em que, muito pequena, na escola primária, corria pelo recreio de braços abertos, o começo do outono e a sensação de ser empurrada em frente mesmo que, já nessa altura, sentisse um peso que me impelia a permanecer com medo.

parece-me que é desta que vou regressar a casa.

que vamos.

afinal, por estes dias, sou dois.

 

 

é uma coisa engraçada esta coisa do tempo.

ainda ontem tinha a vida toda por escrever, a juventude eterna pela frente e estou hoje a viver o que nunca fui capaz de sonhar nos dias em que o tempo se desfolhava à minha frente. 

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publicado às 11:12



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