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banalidades

por M.J., em 07.03.15

tenho uma brutal dor de cabeça que me persegue até aos ossos.

não passa por mais porcarias que tome. acredito que, tarda nada, se espalhe até à barriga e eu acabe a noite na casa de banho a praguejar.

 

passei o dia de um lado para o outro.

estava sol quente na serra e a água corria selvagem no rio, ao fundo. o céu permanecia mais azul do que nos últimos dias, de uma limpidez de pássaros em cantos e trinados matando o silêncio da terra.

 

quando regressámos a casa passámos pela praia.

um mar de gente em frente ao mar azul, ao fundo, e ondas revoltas de espuma branca. na calmaria da tarde o INEM cortou o ar por causa de um idoso sentado ao canto, num muro, ar cansado e pálido de morte. uma multidão acercou-se, curiosa, a querer saber. olhei por de trás dos óculos escuros a esperar sangue e desgraça tal a gritaria da ambulância e a multidão em redor. nada de grave, perdi o interesse.

 

em casa estendi roupa no estendal novo, esticadinho fora da marquise.

a árvore do jardim em frente, a encimar um candeeiro de parque idílico, tem as flores, de um rosa pálido, a abrir. escurecia lentamente. nas janelas em frente uma vizinha olhava compenetrada um tacho vermelho e, na janela de um apartamento em baixo, um rapaz musculado, em tronco nu, fumava languidamente olhando o jardim. cozinhei com a janela da cozinha aberta, esquecida das indiscrições dos vizinhos e  apenas a fechei quando a par com os odores de laranja e carne, saídos do forno, a miúda do andar de baixo quebrou a melancolia do anoitecer em gritos histéricos acompanhados do ladrar rouco do cão.

 

estou sentada no sofá.

a temperatura desceu e enrolei-me numa manta. não me apetece chá e comi maçã assada na tentativa de adoçar a noite. estou velha. esta manhã, no sol que batia no espelho do carro vi, sem sombra de qualquer dúvida, brancas infindas perto das orelhas.

 

há uns anos atrás, não muitos, estaria a esta hora em bares, com roupas interessantes e saltos nos pés, a fumar sisha, a beber como se o mundo pudesse acabar amanhã e a querer viver tudo, naquela hora, na certeza que cada momento mal vivido era vida perdida. agora estou aqui. num pijama largo demais, uma manta em cima das pernas, a fazer caretas à tv onde passam programas obtusos e pequeninos.

 

talvez se chame crescimento.

eu creio, tristemente, com as minhas brancas na cabeça e a minha manta nas perna, que se chama estagnação. aquela coisa que aliada à rotina me permite viver sem achar que sobrevivo.

 

já mencionei que me dói a cabeça?

 

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publicado às 22:06


5 comentários

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De omundodosoutros a 07.03.2015 às 23:35

Eheheh ...tem piada e, tirando a dor de cabeça, não me parece mau programa.
Não sei se estou melhor. Há uns anos atrás lamentava-me por ter de ficar em casa e apanhar com o festival da canção. Hoje fico em casa e vejo o festival por opção!
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De M.J. a 08.03.2015 às 00:07

o poema que a simone cantou é lindissimo. Pena ser cantado por ela. Lindissimo mesmo.
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De omundodosoutros a 08.03.2015 às 15:20

não vi o programa todo, só vi as 3 últimas canções. Mas, fui ver a letra (a minha tv não permite puxar para trás e não consegui ver o video na net ) e concordo, é bonita. Não sei se é canção (ou interprete) adequada a um Festival da Canção, pelo menos da forma como é feito atualmente . De qualquer forma, acho que temos de aplaudir a disponibilidade da Simone para se expor, e a sua coragem em correr riscos. Seria interessante ver como o Festival da Eurovisão reagiria a esta canção e a uma interprete desta idade, ainda por cima, uma ex-participante. Talvez ganhasse. Está na moda o out of the box”, o ano passado ganhou a mulher de barba! De resto, concordo com o outro post que fizeste sobre este assunto. Apesar de um bocadinho cruel (talvez por isso mesmo), a verdade é que o programa mostra a idade que tem. O Júlio Isidro, coitado, não ajuda nada. Não é que tenha feito alguma coisa de errado, mas tem um ritmo e uma postura que parecem de outro tempo. Parece um daqueles tios que parou no tempo e que, apesar de muito simpático, é um chato do caraças. Não posso deixar de dizer que tenho sentimentos ambivalentes e mesmo de culpa ao dizer isto, porque eu cresci a ver esta gente da RTP ( até tive uma bota Botilde e adorava aquilo) e sinto como se os conhecesse. Por outro lado, tenho algum receio de como as novas gerações olharão para mim quando estiver na situação do Júlio Isidro. Estes miúdos mais novos são muito mais adaptados à tecnologia, já os vi fazerem coisas incríveis (os sacaninhas conseguem escrever sms sem olhar paras teclas do telemóvel. A sério, já os vi fazerem-no!).
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De M.J. a 09.03.2015 às 15:38

mas olha que o julio nem foi o problema da coisa. toda a gente o conhece e o público acaba por o suportar, com uma empatia de pena e aceitação. o problema foi tudo o resto: as luzes que davam um ar soturno e gasto aquilo. o cenário que da maneira como estava, conjugado com o rosa choque, dava a sensação de ser ainda mais minúsculo e claustrofóbico. as piadas à fernando mendes no preço certo. tudo tão mau. tão pequenino. tão... velho!

a letra era fabulosa, a musica também. quanto ao mais, na minha opinião a simone já não tem voz para cantar. faz-me lembrar alguém muito ressacado a puxar pelas goelas.
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De omundodosoutros a 10.03.2015 às 01:16

:)
e tu a dar-lhe :)
achas que se podia safar a Leonor Andrade que é tão bonitinha e a Catarina Furtado que continua Brasa :)

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