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banalidades

por M.J., em 07.08.15

esteve vento o dia inteiro. as rajadas eram tão fortes que revolviam cabelos, abanavam as árvores e batiam nas janelas, fazendo ranger as portadas. a roupa no estendal bailava como bandeiras de liberdade e o ar da praia, na torreira, quase deserta, uma imensidão de mar para ninguém, era frio.

senti frio em agosto.

ontem quando estava na esplanada uma das senhoras habituais meteu conversa comigo enquanto eu fazia festinhas a um cão preto, muito velho, que ronda a pastelaria e é de todos, apesar de ter um dono tão velho como ele. como a senhora era simpática eu mantive a conversa acerca de cães e disse mesmo quanto achava piada a um cãozito castanho, pequeno, que anda o dia inteiro pelo bairro, em rondas sucessivas, passa nas passadeiras, deita-se ao sol em frente a um carro e passeia atrás do dono com alegria de quem tem um amigo.

- ah, o castanho? - perguntou a senhora - o castanho é uma história engraçada. ele não é daqui, sabe? 

como não era? perguntei estranhando, eu que vejo o cãozito todos os dias, com ar de senhor do bairro, encostando-se às árvores e às pessoas, ladrando aos outros cães e abanando o rabo ao dono.

a senhora contou-me.

vai-se a ver e o cão, o castanho, tem os seus donos a mais de um quilómetro daqui. não se sabe bem como mas um dia apareceu no bairro e apaixonou-se literalmente por um dos senhores que cá vive há anos. sempre que o via andava a atrás dele numa devoção e fidelidade. foi escorraçado - que não só tinha coleira como o senhor tinha um cão - mas de nada valeu. todos os dias o castanho aparecia à mesma hora. perante a insistência foram-no alimentando. o outro cão, já velhote, não quis saber da concorrência e o castanho fica o dia todo. deita-se na rua em frente à casa a vigiar entradas e saídas, segue fielmente o não-dono com ar de posse e toda a gente gosta dele. um dia entrou dentro do carro do senhor, por uma janela aberta e foi com ele dar uma volta, só tendo o homem dado conta dele uns quilómetros mais tarde. a partir daí sempre que pode o cão esgueira-se para dentro do carro e põe-se à janela. também neste caso o dono-não-dono se deixou vencer e às vezes passeia com um cão em cada janela.

um dia o verdadeiro dono do castanho apareceu no bairro, zangado, a barafustar com o não-dono do animal. que o cão era dele, não tinha nada que passar aqui o dia. verdadinha. o velhote encolheu os ombros, disse que não tinha culpa. o dono levou o cão, ainda a gritar impropérios. no dia a seguir, à mesma hora, o castanho estava sentado à porta do não-dono.

dono e não-dono acabaram por desistir de o moldar. e todos os dias o castanho chega à mesma hora ao bairro, à casa do dono que escolheu, dá as suas voltas, dorme em frente ao carro, espera pelo amigo, caminha atrás dele com o rabo a abanar e um ar de genuína felicidade. e à noite vai-se embora para casa do dono que o escolheu. todos os dias. sem existir uma única folga.

 

e esta manhã vi o castanho, ao pé do cão mais velho, de rabo a abanar atrás do dono, ladrando de vez em quando para o amigo não se esquecer que ele continua ali.

e nem o vento o afastou. 

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publicado às 18:44


6 comentários

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De Cris a 07.08.2015 às 20:42

Que história deliciosa! Mais uma prova que há animais que escolhem os donos e não os donos que escolhem os animais.
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De M.J. a 08.08.2015 às 16:20

nunca pensei que fosse possível mas ele é a prova que eu conheço do oposto.
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De RC a 08.08.2015 às 15:33

Que de banalidade tem coisa nenhuma. Adoro a história :)
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De M.J. a 08.08.2015 às 16:20

é fabulosa, não é? agora sempre que vou à rua olha para o cão com um novo respeito.
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De Mia a 01.09.2015 às 17:29

Oh :')
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De M.J. a 01.09.2015 às 18:07

ainda ontem o vi aos pulinhos ao lado do homem, numa alegria que só visto.

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