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banalidades

por M.J., em 11.09.15

é incrível como dez anos depois sinto a mesmíssima coisa que senti no dia em que vim a esta cidade para ficar: odiei.

odeio tudo neste momento, com a mesma garra com que odiei nessa altura, em que se me tivessem dado a escolher não teria voltado, depois da matrícula ou vivido por aqui.

depois aprendi a gostar.

lembro-me que o que mais me custou, logo no início, foi a agitação das pessoas. os constantes autocarros, cima baixo. a quantidade de gente em todo o lado, como se cada espaço da cidade já tivesse ocupado e conspurcado por alguém. como que se cada árvore já tivesse um dono, cada pedra uma história e todo e qualquer um fosse apenas mais alguém, a passar por aqui.

como se fosse proibido criar raízes num lugar onde toda a gente diz ter milhares delas, bem apertadas.

custou-me, evidentemente, o sentir-me olhada, mesmo não sendo. eu era e sou do interior. trazia em mim a ingenuidade de quem, por exemplo, nunca fora a um cinema. de quem dizia bom dia a toda a gente na rua e conhecia cada pessoa, pelo nome, no mundo onde vivia e que era todo seu. sentia-me por isso distante, diferente, olhada. como que se a qualquer momento alguém fosse olhar para mim e desatar a rir, por ser mais pequena, inferior, longínqua de civilização.

é estranho que agora me sinta quase assim. uma pessoa vive aqui um par de anos, muda-se para uma pequena cidade à beira mar, num bairro pequeno, onde aprendemos a conhecer os vizinhos pelo nome, sabemos as histórias do cão que vagueia pelo bairro na paixão de um dono que não é dele, desejamos bom natal à senhora da mercearia, em frente, conhecemos cada árvore, cada pedra do parque, aprendemos a sorrir às pessoas e dizemos bom dia a tudo e todos, vivemos uma vida tranquila, quase de interior e depois deixamos, ou melhor, eu deixei de saber viver diferente.

não tenho a pretensão de achar que a minha inadequação aos sítios onde vivo, numa primeira fase, é culpa dos sítios. é minha, evidentemente. sou eu que os olho com a mesma desconfiança com que olho para as pessoas. sou eu que os repudio, até à exaustão, sabendo de antemão da minha infelicidade. invariavelmente aprendo a amá-los. a sentir-me integrada e completa. o mesmo com as pessoas.

não sei ainda por que me espanto.

acredito só que desta vez, num retorno, num renovar de sentimentos anteriores, seja mais difícil. porque vagueando pela cidade, pela enormidade de pessoas, estranhas, diferentes, esquisitas, me custa a acreditar que posso sequer voltar a sentir um pouquinho do que senti na altura em que fui embora daqui. que posso outra vez achar que estou em casa.

não estou. nem mesmo neste sítio, a cinco minutos da cidade, com uma vista sobre o nada e a ausência de carros, multidões ou até animais.

contento-me apenas em saber que a única diferença, entre o outrora e do agora, é que antes estava deserta de me integrar. queria ser eu como o que via. queria ser da cidade. queria confundir-me com as gentes. queria ser mais uma pessoa com história num local de histórias.

agora não.

aceito-me como sou. assumo a minha inabilidade, incapacidade social. aceito a minha triste personalidade e feitio e vivo com eles na certeza que o que sou me trouxe até aqui.

e o aqui é muito melhor do que o onde iniciei a ser. 

 

 

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publicado às 16:26


4 comentários

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De Cris a 11.09.2015 às 18:34

Para mim, cada vez que vou para novos sítios, são as pessoas que acabam por fazer a diferença.
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De M.J. a 14.09.2015 às 12:04

eu e as pessoas não nos damos.
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De Maria Araújo a 14.09.2015 às 19:23

acho que não me adaptaria nunca (tive experiência disso há muitos anos, e regressei à minha cidade).
mas desejo-te o melhor.
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De M.J. a 14.09.2015 às 22:31

obrigado.

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