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banalidades

por M.J., em 29.09.15

quando acordei no sábado um nevoeiro cerrado caía nas janelas, nas varandas e nos carros. vesti-me, ainda assim, com entusiasmo pensando como seria bom rever o pequeno luxo a que nos dávamos, no primeiro ano de faculdade, de tomar o pequeno almoço na baixa de coimbra, numa das pastelarias mais antigas, com vista para a rua principal, o senhor do cais a vender a revista, silenciosamente, as pessoas na rua, o cheiro a pão quente e o empregado simpático que nos chamava de princesas e dizia, entre dentes, que os tempos estavam bem duros.

caminhei desde o parque verde até à baixa. as ruas estavam quase desertas e o nevoeiro engrossou em pequenas gotas quase de chuva. as esplanadas mantinham-se vazias, num chamamento infeliz de mesas e cadeiras molhadas e de algumas portas escorria o cheiro a bolos. não parei em nenhuma, numa missão de reconstruir o tempo e dar conta das quartas feiras em que nos sentávamos na mesma mesa e pedíamos, com ar de quem encontra um luxo que nunca teve,de meias de leite com torradas fofas de manteiga. 

quando entrei pareceu-me mais escura, mais velha, mais enxovalhada.

sentei-me ao canto, na mesma mesa onde nos sentávamos. haviam velhinhos na frente, com roupas domingueiras a ler o jornal. as cadeiras eram as mesmas, o chão também. e a luz coada do tecto deixava ver os traços do tempo que não me permitiam ver o luxo que vira outrora, desabituada do mundo de pequenos almoços fora de casa.

o empregado era o mesmo. não havia pão escuro e pedi uma torrada, com pouquinha manteiga, repeti, acompanhada de um café pingado. as pessoas falavam baixo e ao meu lado sentou-se um casal com uma criança que dormiu o tempo todo, num carrinho velho. quando me trouxeram a torrada escorria de manteiga. pus de lado o livro que me acompanhava no terror de me encontrar sozinha, sem nada e apresentar-me exposta ao mundo, e tentei comer. não consegui. a manteiga espalhava-se pelos dedos e braços e caía em largas gotas na mesa. desisti a um terço e bebi o café com melancolia. o sítio era o mesmo mas eu estava sozinha e o sentimento de outrora, de novidade, de conquista dos espaços que nos apareciam, de desbravamento da vida com garra, como se o futuro estivesse em cada cadeira, em cada passo pelos ruas desvaneceu-se.

o empregado que não tinha mais rugas, nem cabelos brancos e caminhava com o mesmo passo decidido perguntou-me se a torrada não estava boa. quis dizer-lhe que não e que eu julgara puder reconquistar nela o que vivera e quem sabe retirar desse tempo a vontade de ir mais além, sempre em frente, sem medo de encontrar amarras e entregas. encolhi os ombros e disse que sim. 

quando me vinha embora, dirigindo-me ao sítio de sempre para pagar, ele tocou-me no braço e disse, a mesma voz, que a caixa era ao fundo e se a princesa não se importava de pagar lá.

sorri. afinal houve mudança.

mas só na hora da saída.

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publicado às 10:37


6 comentários

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De Sarabudja a 29.09.2015 às 11:14

Não voltes à casa onde foste feliz. Não é assim que dizem os que têm mais anos do que nós? Talvez tenham coleccionado também mais sabedoria.

Quando faço regressos, tenho a sorte de conseguir quase zerar as expectativas. Não me perguntes como se faz. Acho que aprendi alguns truques para não me sentir tão pequena e triste.
Acreditei em que me disse que em mim cabe muito mais entusiamo e alegria do que aquele a que me habituei a guardar. Penso que arranjei um espaço para testar teorias alheias. Gosto de perder, quando ganho.

Afirmo que com os meus olhos cor de um dia de outono quente, combina esta pueril forma de ser, não menos triste, mas um bocadinho mais feliz.
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De M.J. a 29.09.2015 às 11:59

um dia talvez consiga adquirir essa maturidade :)
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De Paula a 29.09.2015 às 11:35

Nada, nunca, será como dantes!
Mas podemos (e devemos) aproveitar o hoje, com a certeza que este hoje pode ser melhor ou pior que aquele ontem, mas nunca igual!
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De M.J. a 29.09.2015 às 11:59

efectivamente nunca igual.
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De Corvo a 29.09.2015 às 12:08

Porque as motivações de estudante eram outras.
As que agora lá a levaram eram diferentes.
Os mesmos olhos que se encantam com a beleza de um dia enevoado, frio e de chuva, quando a felicidade os acompanham, são os mesmos que se deprimem à tristeza de um dia absolutamente igual, quando o desgosto lhes faz par.
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De M.J. a 29.09.2015 às 14:00

sim, é isso mesmo :)

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