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banalidades

por M.J., em 03.10.15

tomamos o pequeno almoço numa pastelaria que não ia faz anos. costumava sentar-me numa das mesas do canto, com a tânia, vendo com ar de aflitas os bolos de chocolate na vitrina e respirando com intensidade o cheiro a doce e a pão. a tânia não estava comigo hoje mas a mesa era a mesma e os bolos iguais.

a cidade estava quieta na manhã que corria. o meu vizinho de um dos lados descarregava lenha de um carro novo, com luvas até ao cotovelo. lembrei-me do papá e das mãos calejadas, gretadas no inverno, na renuncia por luvas  num orgulho de homem. disse-nos bom dia carrancudo e vi, já no carro, a miúda do lado esquerdo que me acenou muito e com quem troquei duas palavras esta semana acerca do gato que de vez em quando salta para a minha varanda e fica quieto, à espera que o devolvam a casa.

na varanda coloquei plantas da época, floridas de rosa e vermelho e uma cadeira com vista sobre o monte. o céu está um cinzentão escuro e ouvem-se sons de outono que não consigo adivinhar porque associo à época: o vibrante das serras eléctricas, o arrulhar das rolas, a lentidão dos poucos carros que deixam um rasto lento no ar, quando passam.

depois de almoço senti uma ansiedade crescente que não sabia descortinar. encharquei-me em chá como um alcoólico em vodka e sentei-me à varanda à espera que passasse. não há livro que me sirva, sons que me acalmem ou chás que resultem. o corpo vibra-me como se esperasse um prenúncio de desgraça e antevejo aquele pânico, crescente, que não sabia distinguir outrora.

ele chega e percebe o tremer das minhas mãos, o chá ainda a fumegar, os olhos em agitações, numa procura incessante de nada. abraça-me com força. não precisamos de palavras. afaga-me o cabelo e aperta-me a mão esquerda com força.

o vizinho acabou de passar a lenha e reparo pela primeira vez que um dos cedros está a morrer, muito devagarinho, tentando ainda manter uma imponência digna nos ramos secos, sem um galho verde.

é sábado e tenho saudades de casa.

do mar.

das gaivotas.

e do vento.

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publicado às 16:03


7 comentários

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De Cinisga a 03.10.2015 às 18:53

Ando a ler o teu livro e o teu blog ao mesmo tempo. Sinto que te li desde sempre, como sempre te conhecesse...bolas ando a ficar assustada!
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De M.J. a 05.10.2015 às 11:02

não fiques.
se calhar conheces...
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De Cinisga a 05.10.2015 às 13:14

Acho mesmo que sim. 😊
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De M.J. a 07.10.2015 às 12:04

e tenho um mail para te responder.
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De FS a 04.10.2015 às 22:23

Fica a dica: este blog é um fiasco, espero que um dia tenhas a sabedoria suficiente em fechares isto ... lamento , mas não resulta...naaaah , mas hey! boa tentativa.

P.S: a liberdade de expressão é algo que nunca se perde, mas a educação e o respeito, isso já não toca a todos.

Boa noite
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De Paula a 05.10.2015 às 10:30

Belíssimo texto!
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De M.J. a 05.10.2015 às 11:08

obrigado :)

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