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banalidades

por M.J., em 12.10.15

choveu o dia todo. chove ainda, que o dia não terminou. sinto uma espécie de calor, muito no fundo do peito, numa espécie de regresso a casa, que esperava à tanto tempo.

na hora de almoço fui às compras. por um acaso estranho reparei em todas as mulheres com quem me cruzei. primeiro numa curiosidade, depois numa aposta comigo mesma: todas envergavam nail art com orgulho. desde a senhora que me amanhou o peixe à senhora que me aceitou o pagamento. florinhas e estrelas e brilhantes e garras quase afiadas. olhei com desgosto as minhas próprias unhas rentes e encolhi os ombros num desprezo pela primavera nas mãos dos outros.

descobri ontem que tenho um tique parvo, que me ataca nas horas de mais ansiedade: tiro e retiro e dou voltas à aliança que me cobre o dedo. como numa procura de conforto, de sítios conhecidos e simbolismos certos. como se um pedaço de metal tivesse o condão de me trazer dias secos, chá quente e peito aberto em sorrisos. 

constatei também ontem que tenho dois medos, e só, muito concretos acerca do casamento: que pareça uma gorda muito feia dentro do vestido e que ninguém apareça no dia. eu quieta, num altar, com uma espécie de lençol branco a rodear-me o corpo. e ninguém para sequer se rir das minhas figuras. podia ser um pesadelo triste se não fosse um receio.

descobri ainda, que há dias de grandes descobertas, que o pretensiosismo está em todo o lado. mesmo nos lados que pensávamos não ser possível existir. mesmo nas coisas mais simples. mesmo nas coisas que saem do peito. o pretensiosismo de que tentei fugir e que afinal se encontra em artes, em lugares comuns. em pessoas.

uma pena. 

e apesar disso, de chuvas e primaveras nos dedos que não tenho, e medos e ausências, sinto o peito aberto em sorrisos, no regresso a casa. à minha. à que sou.

e hoje, pela primeira vez em meses, vesti uma camisola às cores. com pequenas corujas garridas.

não tenho a primavera nos dedos mas tenho o arco íris no peito.

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publicado às 16:07


26 comentários

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De Me, myself and I a 12.10.2015 às 16:27

Memorável, como sempre!
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De M.J. a 12.10.2015 às 16:28

e eu que pensava que quase ninguém lia as minhas banalidades.
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De Me, myself and I a 12.10.2015 às 16:51

Adoro ler as tuas banalidades. Gosto de acreditar que sao sentidas e reais! Como se ao lê-las te sentisse mais humana! Compreendes? 😱
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De M.J. a 12.10.2015 às 16:58

compreendo.
são as coisas mais reais cá do sítio.
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De Me, myself and I a 12.10.2015 às 17:15

Bem me parecia! Afinal és de carne e osso...es humana! 😈
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De M.J. a 12.10.2015 às 22:02

isso mesmo.
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De Cinisga a 12.10.2015 às 16:48

Reparei, ontem, que te refugiaste a um canto do sofá, porquê?
Deves fazer transparecer o arco-iris que trazes no peito, sempre! ;)
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De M.J. a 12.10.2015 às 16:59

porque não gosto de contactos sociais. não gosto de evidências ou centro. prefiro a sombra.
quando não posso prefiro os cantos.
:)

que achaste tu de ontem?
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De Cinisga a 12.10.2015 às 21:38

Mandei e mail! ;)
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De M.J. a 12.10.2015 às 21:45

e eu respondi.
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De Paula a 12.10.2015 às 16:55

De banalidades nada têm!
Estados de espírito, que reflectem, de uma forma ou de outra, o que também vai na alma de muita gente!
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De M.J. a 12.10.2015 às 16:59

:)
são banalidades. pequenas coisinhas de vida. da minha.
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De Paula a 12.10.2015 às 17:04

Mais que não fosse, nas unhas rentes entendiamo-nos perfeitamente!
Mas em mais vejo reflectidos uns e outros pensamentos que nos assolam!
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De M.J. a 12.10.2015 às 21:46

unhas rentes é do melhor :)

obrigado.
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De Gato Branco às Riscas a 12.10.2015 às 17:25

Como sempre uma escrita maravilhosa que me faz viajar nas palavras... Parabéns!
Vai tudo correr bem...
Beijinhos!
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De M.J. a 12.10.2015 às 21:46

oh... muito obrigado.
mesmo.
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De Maria Araújo a 12.10.2015 às 18:41

Já te disse, num outro comentário que uso as unhas rentes e detesto essas merdas dessas unha nojentas.
Sabes? Adorei isto: "não tenho a primavera nos dedos mas tenho o arco íris no peito."
És um doce.
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De M.J. a 12.10.2015 às 21:46

e tu és uma querida comigo. às vezes não me sinto merecedora da tua simpatia.
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De (des)Esperança a 12.10.2015 às 20:49

Tu ÉS um arco-iris...
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De M.J. a 12.10.2015 às 21:46

são os teus olhos, meu amor.
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De diana a 12.10.2015 às 23:11

arco iris no peito é bonito...primavera nas unhas será sempre parolo...até pk é outono...toda a gente sabe que se deve pintar as unhas de vermelho ou bordô...
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De M.J. a 13.10.2015 às 11:47

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

o meu pai sempre me disse que menina séria não pinta unhas de vermelho.
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De Sarabudja a 13.10.2015 às 11:28

Leio as Banalidades e os comentários. Como podes achar que há coisas que ficam por ler? Talvez porque és a mesma pessoa que acha que vai ficar sozinha em dia de casamento.
Não sabes que há sempre alguém que nos quer tão bem, mas tão bem que está lá sempre?
Gosto quando as tuas banalidades se fazem de conseguir colorir os dias. Não que não entenda ou respeite os não-dias, mas saber-te de arco iris no peito é saber-te de aguarelas na mão. Como se explica isto de me sentir bem porque alguém que nunca vi ou cheirei se sente bem? Quando as palavras são mais leves e com cor?

Mudando de conversa: e vais ser uma noiva gorda enrolada em lençol porquê? Fizeste alguma promessa à nossa senhora dos totós?
Então o foco fit?
Só por causa desses pensamentos devias fazer uns agachamentos. (o pessoal fit faz isto, não faz?)
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De M.J. a 13.10.2015 às 11:50

porque banalidades são isso mesmo. pequeninas coisas que não se coadunam com a M.J. personagem. que são integrais da pessoa que escreve a M.J. e não interessam tanto a quem aqui passa, na procura de uma cerveja e de uma gargalhada.

sou insegura. absurdamente insegura. talvez por isso duvide, sim, que haja sempre alguém que nos quer bem.

(e sim, minha querida. entendo melhor que algum dia conseguirei transmitir por palavras, o que é sentir-me bem porque alguém que nunca vi ou cheirei se sente bem também :) )

o foco fit mantém-se mas a gordura mantém-se também. uma consumição.
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De belitaarainhadoscouratos a 14.10.2015 às 09:52

não te cruzaste comigo, posso-te garantir... neilarte? pffff
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De M.J. a 14.10.2015 às 14:34

não, não cruzei :)
uma pena.

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