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banalidades

por M.J., em 21.10.15

fez vento a noite toda. as rajadas batiam nas janelas do quarto com força, fazendo lembrar serões de gelo, electricidade que fugia e a luz da lareira como única maneira de fugir às trevas.

dei mil voltas na cama.

isso é falta de cansaço, dizia-me uma vozinha, muito persistentemente ao ouvido. o rapaz dormia serenamente, ao meu lado, não ouvindo o vento, as árvores a bater com força numa fragilidade que metia medo e as roupas no estendal da varanda, presas por pequenas molas de madeira.

às três a manhã levantei-me, cansada do sono que não vinha e do vento que me arrancava lembranças, passado e pessoas, tudo junto a bater na minha janela, como fantasmas vivos que eu recuso deixar entrar. na cozinha uma frecha da janela mantinha-se aberta e abri-a de par em par entrando na varanda.

o horizonte era  o céu negro repleto de pequenas estrelas e as árvores na ventania, como sombras erguidas ao céu. um dos cedros, creio ter dito, está morto e mantém-se ainda assim, de pé, voando com força ao lado dos verdes. não se distinguem os cedros mortos dos vivos na escuridão da noite e do vento.

fiz chá quente de hortelã, em folhas secas pela mamã, e sentei-me, desconfortável, descalça, o pijama demasiado curto, a tentar aquecer a alma.

resulta.

resulta sempre.

depois abri a caixa, florida, que mantenho para me lembrar de quem fui, não vá perder-me em sombras e acordar um dia desvanecida de mim própria e revi momentos, horas, dias, pessoas. revi o passado folheando papeis, recortes e fotografias de gente a sorrir. sempre a sorrir.

quando me voltei a deitar, nas primeiras luzes do dia que entravam na janela semi-aberta, o chá estava frio, os pés gelados e o cansaço apoderava-se dos olhos. finalmente podes dormir, disse-me a voz.

por hoje, expurguei fantasmas.

 

amanhã logo se verá. 

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foto de rui chaves 

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publicado às 11:51



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