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banalidades

por M.J., em 11.11.15

comprei a elegância do ouriço ontem, depois de jantar, quando fomos à almedina tomar café. li a contracapa ainda sentada na mesa e percebi logo o motivo da recomendação. o rapaz, com ar de enjoo para tanto livro, acabou por encontrar um presente que me queria oferecer desde que comecei com esta coisa da programação: um livro completo de htlm5. ficamos os dois, sentados na mesinha, sozinhos numa livraria enorme, a tomar café, cada um com o seu livro, num  mundo de pensamentos: eu sentindo-me triste por nunca, jamais, conseguir sentir como a Paloma, ele olhando capítulo por capítulo aquilo que me podia ser útil.

quando pagávamos descobri um antigo colega de curso como funcionário. nós que nunca fomos amigos, próximos sequer (não era fácil ser-se próximo da gorda marrona, de mochila cor-de-rosa sentada nas filas da frente do auditório com espinhos - não espinhas - ao invés de sorrisos) mas tive vontade de lhe dar um abraço. aí está um colega, estágio terminado, com cédula, a trabalhar numa livraria, de queixo erguido, sem vergonhas, sem doutorices, sem merdas. a fazer algo para além da puta da profissão que julgou escolher e que serve de tanto como ir apanhar míscaros em abril. caramba! a vontade que tive de lhe apertar a mão e dizer que o considerava grande homem, a sério, por ser íntegro a ele próprio e não fazer como os outros, os que conheci, que sem cêntimos no bolso continuam a exigir ser chamados de doutores, se recusam a sentar em cadeiras na serra e se acham superiores ao resto do mundo por ter acabado um curso com média de dez à custa dos pais. não lhe disse isso, pois não, mas tive o sorriso mais caloroso dos últimos meses.

também sei sorrir de forma afável, quando sinto.

quando chegámos a casa sentámo-nos no sofá, cada um com o seu livro. não quis apontar o inédito da situação. não haviam pcs, filmes ou ps4. estávamos sentados, lado a lado, com dois livros completamente diferentes a bebericar chá e a comer bolo de aveia. de vez em quando interrompíamos o silêncio para falar de coisinhas: os conceitos básicos de htlm que eu devia ter em atenção ou as frases que me corriam nos olhos e que eu nunca conseguiria traduzir em linguagem por incapaz mas que sabia que ele gostaria de ouvir.

quando nos deitamos senti uma cumplicidade que falhara antes, ainda, no que somos: um serão no sofá a ler e a bebericar chá. os dois. sem ruídos ou interrupções.

há coisinhas pequenas que nos transformam o mundo e traduzem o agora em pedaços de eternidade. 

 

(tu. e ele. um livro. e sinto-me, em cada página próxima de vós, na ilusão dos tolos, como se na minha pequenez pudesse estar ao vosso lado.)

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publicado às 14:12


13 comentários

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De Gaffe a 11.11.2015 às 15:21

:)
Pergunto muito baixinho e muito pequeninino:


- gostas?
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De M.J. a 11.11.2015 às 15:25

respondo muito alto: MUITO. GOSTO MUITO. é como entrar, de supetão, num mundo maior que o meu.
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De Gaffe a 11.11.2015 às 15:55

O mundo é do teu tamanho.
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De M.J. a 12.11.2015 às 17:03

quero acreditar que sim.

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