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banalidades

por M.J., em 25.02.16

deve ser só de mim, não sei, mas acontece-me por vezes, nas mais dispares situações, ser assaltada com imagens, acontecimentos do passado que julgara esquecidos. ou melhor, que julgara não terem existido porque o esquecimento é a nulidade do acontecido. 

diria até que é frequente. normalmente surge por associação de ideias, palavras, objectos ou cheiros. e afectam-me profundamente. há de tudo. acontecimentos traumáticos que ficaram muito recalcados e que veem a luz do dia quando estou mais calma. acontecimentos queridos que fui deixando para trás e que me assolam à mente quando me tento concentrar em qualquer coisa. episódios simples de uma vida doméstica antes de dormir e que nem sabia já que os vivenciara.

hoje, enquanto batia nas teclas com força de um trabalho em atraso, a ideia de que até a minha vida profissional é um caos, ora com trabalho em excesso ora com trabalho mais medido que me permite laurear a pevide durante horas, veio-me assim, num rompante, sem qualquer motivo aparente uma tarde de sol à memória.

eu e a avó e o avô num dos campos da família, com vista para a serra, um calor forte nas costas, a terra aberta em pequenos socalcos para semear qualquer coisa. o avô com uma boina aos quadrados na cabeça a levantar e a mexer no solo, secando de vez em quando o suor da testa. a avó na sua bata e carrapito pegando em pedaços de madeira caídos ao chão e amontoando-os nas beiras, ao pé dos regos abertos para a água entrar na terra. e eu sentada, a um canto, olhando a imensidão de verde à minha frente, num tédio de quem sente o sol e o ar, sem som de carros, músicas ou vozes. só o motor de uma motosserra muito ao longe. o bater das folhagens das árvores. a água a borbulhar na presa. o silêncio dos pássaros na sesta da tarde quente.

a imagem é tão clara, tão vivida que sei sem qualquer imprecisão do rosto do avô à vinte anos atrás. a cara da avó, cansada, em esgares de custo quando se dobra para apanhar pedaços do que amontoa. e o meu tédio, cravado nos dedos a fazer castelos de terra sentindo, sem saber, que aquilo era o tudo e nada mais me esperava.

quero tanto mergulhar nessa imagem, de vivos e ausentes e sol e calor e pássaros e silêncio e simplicidade e brisa na face que me perco na imensidão de trabalho conjugada na vida dentro de um computador. sem sol nem pássaros nem suor nem terra nem árvores nem a imensidão sem medos à frente.

há imagens vividas que pela serenidade doem.

credo, como doem.  

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oh vai ver ali:

publicado às 16:00


4 comentários

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De sarabudja a 25.02.2016 às 17:19

https://www.youtube.com/watch?v=nEjoPH2mLjw

Acho que hoje há postais dos avós, que por cá já não andam, por todo o lado.
Há dias assim: saudade do que não se vê, mas ainda se vive.
Aceito a ordem natural das coisas, mas confesso que gostaria que os meus avós pudessem perceber a serenidade dos olhos grandes do meu filho e a resposta na ponta da língua misturada com abraços sinceros da mais nova.

https://www.youtube.com/watch?v=ox1VItF3R-E
("Brinde a nós, brinde aos avós. 'Que se houver céu, não estão lá sós")
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De Just_Smile a 25.02.2016 às 17:21

Não é só a ti e se por vezes sabe bem, outras parece que me espetam a faca...
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De Palavras_aovento@sapo.pt a 25.02.2016 às 18:12

Lindo texto, que consegue transportar-nos de imediato para uma paisagem lírica brilhante! ;)

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