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banalidades

por M.J., em 08.06.16

tenho insónias como quem tem moedas de um cêntimo perdidas em bolsos de casacos fundos. fico deitada, muito quieta, esperando que o turbilhão de pensamentos, objectivos, falhanços, frustrações, desesperanças e tudo o resto sejam consumidos pelo sono.

quase sempre uma tarefa inglória.

talvez seja por isso que, em desespero de causa acabe por dormir anestesiada, altas horas da madrugada, cabeça para um lado, pescoço para o outro e acorde sem conseguir mexer a coluna, estática mas não esquelética, pela lembrança do mar revolto de coisas que não controlo na minha mente e que são parte de mim.

esta noite não foi diferente. estou cansada, olheiras de metro a consumir-me a cara e toda uma sensação de frustração a envolver quem sou. uma vez um amigo, que o era na altura, contou-me que passou uma vida inteira a correr por etapas. constantes etapas a que dedicava integralmente o seu tempo. os primeiros anos de casamento. o crescer dos filhos a quem dedicava extrema atenção. a construção sólida de um posto de trabalho vantajoso e, mais para o fim, a idealização, construção e acompanhamento da casa. depois disto, um dia acordou e verificou que não tinha nenhuma etapa. que não havia qualquer leme a leva-lo fosse para onde fosse e sentiu-se pejado de uma intensa melancolia. o meu amigo, que o era, divorciou-se meses depois e recomeçou tudo, desta vez sem etapas.

não sei se mais feliz. mas pelo menos mais sábio. 

consumi-me em pensamentos sobre isto esta noite. estou numa pequena depressão que me queima por não saber qual o passo seguinte. por não poder dedicar o foco e a atenção dos meus dias a algo para além do que faço. por me sentir a entrar numa rotina que não escolhi mas que faz parte porque, sinceramente, ninguém aguenta emoções de merda todos os dias.

sinto-me absurdamente sozinha outra vez mas afasto contactos. vejo-me a rebolar as olhos pelas conversas que ouço em esplanadas, centros comerciais ou sítios públicos onde dou ar de minha graça. constato que não poderei jamais ser mais social do que isto porque me perco em sentimentos de impaciência pelas pequenices das pessoas e, ainda assim, há algo a faltar que me obriga a querer estar com elas.

uma grandessíssima idiota chapada.

junho nunca foi um grande mês. não acredito em superstições, coisinhas sem explicação mas sei, pela experiência dos últimos vinte e nove anos que junho nunca foi grande mês.

vamos ver se consigo transformar este, mais uma vez, numa valente bosta. 

capacidades para isso não me faltam. sou absurdamente dotada de um poder autodestrutivo que nunca me falhou.

 

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oh vai ver ali:

publicado às 10:10


11 comentários

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De Tea a 08.06.2016 às 10:37

Sei tão bem o que isso é. Às vezes também me sinto assim. Ou pelo menos já senti. Agora acho que estou mais resolvida comigo própria. É uma fase. Hás-de encontrar o rumo que queres dar. :)
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De M.J. a 08.06.2016 às 13:54

acabamos sempre por encontrar, não é?
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De sarabudja a 08.06.2016 às 11:24

Junho é o mês que se me atira ao chão.
Isso de afastar contactos, é comigo mesmo. Até o livro está por enviar porque me apetece pouco ver o senhor do correio.
Por mim, ficava colada à cama até este peso se me sair de cima por ele mesmo. Sabe a minha razão que terei eu que o varrer.
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De M.J. a 08.06.2016 às 13:55

há tantas coincidências entre nós que nem atrevo a questionar o motivo.
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De sarabudja a 08.06.2016 às 17:09

Acho que há coincidências entre muitas pessoas. No fundo, no fundo, algumas etiquetas vão-se misturando com a nossa essência e acabamos por ser mais elas do que nós.
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De blogdocaixote a 08.06.2016 às 13:45

Parece-me, pelo que vou ouvindo aqui e ali, que toda a gente tem um mês especial, aquele mês em que só sentimos merda e só conseguimos fazer outro tanto. O meu é o de outubro. Às vezes dezembro.
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De M.J. a 08.06.2016 às 13:55

gosto de outubro. e de dezembro também.
junho mata-me.
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De Gaffe a 08.06.2016 às 13:50

Às vezes fazes-me silêncio.
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De M.J. a 08.06.2016 às 13:56

provavelmente nas vezes em que mais preciso de palavras :)
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De Gaffe a 08.06.2016 às 14:02

Eu sei.
Mas nunca sou alguém para tas dizer. Há tantas palavras minhas que só tu és capaz de pronunciar!
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De Joana B. a 08.06.2016 às 17:02

Estou numa dessas fases...
Preciso de resolver certos problemas mas que não dependem só de mim para serem resolvidos e enquanto espero sem poder fazer mais nada sem ser esperar fico mais em baixo e com a cabeça sempre ocupada com estas coisinhas.

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