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bicho do mato

por M.J., em 31.10.16

deixa de ser bicho do mato, rapariga,

a mamã em tentativas frustradas, primeiro a catequese, depois a escola, depois com a vizinha, a minha cara cerrada, o não querer ir, estava-se tão bem no meio dos livros, da tv ou a falar com a bonecada em cima da cama onde era rainha e senhora,

eu que mando, eu que sei,

a miúda que não se adaptava nem sabia conviver com o outro, 

é filha única, 

dizia a professora, que gostava de mim, já sabia ler e não dava problemas,

isso mais tarde passa,

ainda que não tenha passado e perceba que procuro iguais a mim, pessoas inabilitadas à conivência humana, incapazes de estar sozinhas mas com tanta limitação social, a melhor amiga, o marido, gente sóbria, inteligência a abarrotar mas poucas falas a gente estranha,

quem tu? olha que não, não parece nada, tão divertida,

ainda que o sorriso esconda o eu, os meus erros com os outros perfilados a encher uma autoestrada num dia de verão com incêndios, incapaz de fazer o que me é exigido, a cara fechada, a critica na ponta da língua, a resmunguice prestes a espalhar-se, 

eu que mando, eu que sei,

brinca com os outros meninos, rapariga,

um misto já de sentimentos contraditórios pelo outro, ora desprezo ora inferioridade, 

sou muito melhor do que este, este é muito melhor do que eu,

a mesma bitola para todos, nunca o equilibrio, a impaciência pela limitação alheia ao lado da entrega total a quem me tocava na alma, mesmo que com oito anos lá soubesse o que era alma,

não ligues, podemos brincar na mesma,

gordita, voz forte, inteligente quanto baste, insegurança a abarrotar pelas orelhas, vergonha disfarçada no ar arrogante,

eu que mando, eu que sei,

um paradoxo, mas ainda assim eu,

deixa de ser bicho do mato, rapariga.

 

não deixei. só aperfeiçoei. 

 

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publicado às 10:00


4 comentários

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De sarabudja a 31.10.2016 às 12:32

És sempre bicho do mato, ainda que polido e devidamente adaptado ao mundo dos crescidos, ou tens fases?

Ou és sempre e há fases em que te é quase, se não mesmo, impossível disfarçar o casulo?

(parece, mas não estou a fazer um estudo)
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De M.J. a 31.10.2016 às 13:05

creio que um pouco das duas. sou sempre bicho do mato, devidamente polido na maior parte dos dias e em alguns com quase impossibilidade de o disfarçar.
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De sarabudja a 31.10.2016 às 14:17

Eu sou nada bicho do mato mas há raros dias em que nada me vale e não há quem me arranque uma palavrinha, um suspiro, um cruzar de olhar. Acho que isto é outra coisa.
Sou tímida como o raio, mas disfarço a coisa e com os nervos até apalhaço, mas o certo é que me sinto nanocriatura muitas vezes.

Eu tenho manias e uma delas é a de ter opiniões, então acho que tu não és tão bicho (ogre verde e assustador) como te desenhas e nem sempre pintas.
Não sei como seria o convívio diário,talvez difícil, ou com respeitosos apontamentos de silêncio, mas eu gosto do que te leio e acho graça. Um ou outro aspecto que se me me deixa o pelo erecto, mas acho que é mais uma "freniquice" minha.
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De Cristina - Lado inverso a 31.10.2016 às 12:45

Muito bom este texto

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