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boa tarde

por M.J., em 29.09.14

e depois tu apareceste e eu deixei de beber chá amargo.

e depois tu apareceste e deixei de querer fugir à chuva.

e depois tu apareceste e todas as vogais se tornaram modeladas, gigantes, abertas de som.

e depois tu apareceste e eu fiquei sem saber o que dizer, dos dias cinzentos.

e depois tu apareceste e a dor, que me servia de guia, morreu.

e depois tu apareceste e as cicatrizes, e os cortes, e os medos, e o fugir, e a certeza de que não sou nada, porque não sou afinal, desapareceram.

e depois tu apareceste e eu deixei de conseguir escrever o frio nos ossos, na pele e na alma.

e depois tu apareceste e eu sinto, às vezes, na ingratidão, que se não tivesses vindo, podia não sentir, em alguns dias, a absoluta frustração de ter no peito um batimento constante.

e depois tu apareceste e eu sei que, desta vez, se fores também, serei só vazia. só oca.

só, desta vez literalmente, nada. 

 

(há quem cante odes ao amor. que diga, sem pejo, que o amor transformou os dias banais em brilhantes, a rotina em excitação, a chuva em sol. eu digo, baixinho vê bem, que o amor pôs na minha vida a banalidade, a normalidade, a rotina e a chuva que permitem viver.)

 

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publicado às 15:57


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De Anónimo a 29.09.2014 às 21:32

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