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cansaço

por M.J., em 01.02.18

o grande problema que surge com o auto-conhecimento, trinta anos depois, é a percepção de que não tenho absolutas certezas de nada.

há coisas evidentes que toda a gente julga saber:

quem ama, os limites por que se norteia, os objectivos que fazem parte da vida.

quem detesta. o que quer e o que não quer.

são coisas aparentemente simples que, supostamente, ganham uma nova clareza com o passar do tempo. 

e assim é para aqueles que se conhecem bem.

ou, na minha opinião, para aqueles que, não raciocinando mais do que meio minuto por ano, julgam que se conhecem e vivem numa cegueira triste. 

assim seja.

 

com o tempo deixei de saber quem sou, o que quero, para onde vou.

deixei de assumir certos e errados com a mesma clareza que sei cozinhar um ovo ou fazer uma cama.

há uma dualidade e imensas zonas cinzentas na mesma proporção que vou percebendo quem sou. 

e é triste.

 

porque aumenta o cansaço constante de não perceber o que devo fazer.

olho para os outros na procura: daqui a dez anos quero estar assim ou assim? quero olhar para trás e ver que fiz isto ou aquilo?

quero ver-me com duas crianças absolutamente irritantes, que me perseguem os calcanhares ou como a pessoa que viajou por cinco continentes na procura de quem é, quando podia encontrar-se se fosse normal?

quero ser a fulana que, não tendo filhos, fala de cães e gatos como pessoas? ou quero ser a mãe que, com dois clones de si mesma, é irritante ao ponto de, em todas as conversas, os trazer para o assunto, como se o resto do mundo estivesse realmente interessado em saber?

 

juro que não sei.

deixo-me ir na corrente.

tomo decisões que não são minhas, ou são, mas digo que não no medo de as assumir.

crio objectivos que acho não serem meus, ainda que sejam, porque nasceram de quem sou.

 

viver é uma canseira. 

e a vida em pessoas como eu, insistentemente na dúvida, insistentemente insatisfeitas, na procura constante do que são, mesmo que já sejam aquilo, é coisa para esgotar, para criar espaços mortos e apatias monumentais.

para criar horas perdidas a ver o céu pensando em quem fui e já não sou.

ou quem sou e nunca fui. 

 

estou cansada. 

e a medicação não está a ajudar nadinha. 

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publicado às 14:00


5 comentários

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De Olivia a 02.02.2018 às 12:56

Um beijinho.
E não faças planos que não são os teus... não percas a esperança.

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