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casa

por M.J., em 01.09.15

olho para esta casa e vou-me despedindo aos poucos.

sinto uma espécie de carinho, que não consigo definir, por cada uma das paredes, como se se me tivessem albergado em momentos de fragilidade extrema e ainda assim, tivessem sobrevivido ao mesmo tempo que eu, obrigando-me a bater com os pés e os braços até poder respirar livremente outra vez.

entre estas paredes, vivi o melhor e o pior que a minha pequena vida me proporcionou até hoje. desci  ao mais fundo que foi possível descer, num poço muito escuro e cerrado, cheio de humidade e nevoeiro que se colava aos ossos e me impedia de ver para além do que sentia. e ainda assim, aqui, fui sobrevivendo, aprendendo aos poucos a respirar para além da dor, a apreciar os pequenos cheiros de maçã com canela no forno, de sopa acabada de fazer, de bolachas quentes de limão, de chá a fervilhar numa taça de porcelana. aprendi -  ao mesmo tempo que recuperava o sentido do tacto e do odor e a saborear as coisas, num palato que me permitia comer - a confiar outra vez. a acreditar em mim, enquanto eu, segura num amor que me permitia não só sobreviver mas viver integralmente.

recordo de pequenos pormenores em cada sitio:

o sofá onde pegaram em mim, no que sentia, na dependência que me formatava e me amachucaram numa espécie de papel enrugado, colocando no lixo sem pensar duas vezes.

o mesmo sofá onde me embalaram em dias de terror puro, de apatia, de desistência do que era, prometendo que a dor ia passar.

o mesmo sofá onde me acusaram de ser doentia, tóxica, incapaz de amar para além da dor que me consumia.

o mesmo sofá onde entregaram a alma e a vida, numa comunhão e compromisso de dias seguros e felizes.

 

a varanda onde senti o medo puro, que me corrompia músculos e nervos, ossos e cérebro e onde me foi dito que era exactamente a bosta que eu achava que era.

a mesma varanda que enchemos de girassóis e orquídeas, gerberas e brincos de princesa num recordar de infância.

 

a marquise, de onde olhei com garra, por entre os vidros imundos,  na certeza que poder-me-ia atirar dela e acabar com a dor.

a mesma marquise onde colocamos cordas coloridas, um puff e quadros de borboletas e onde descobri o prazer de ler, vendo a roupa voar ao vento com o cheiro da glicínia mesmo em frente.

 

as estantes, que despi de livros durante aquilo que me pareceram séculos, num despojar de tudo o que não me permitisse fugir, desaparecer de um dia para o outro.

as mesmas estantes que aos poucos fui enchendo outra vez, na segurança dos dias longos e tranquilos, não só com livros mas com globos dos sítios por onde passava, caixinhas de músicas e quadros com fotografias, nas raízes que criava.

 

a mesa da sala, que enchi de livros na certeza que precisava de estudar para enfrentar aquela etapa, e os quais não consegui abrir, deserta de morrer, com a mamã olhando-me num desespero cego.

a mesma mesa da sala onde estudei, depois, e me fez passar com distinção num exame onde tanta gente chumba.

a mesma mesa da sala onde jantei com pessoas, na fuga de mim, falando alto, bebendo muito, rindo histericamente, fingindo ser feliz para que ele não me visse como era e não se fosse mesmo embora, numa frágil e patética tentativa de manipulação.

a mesma mesa onde ele me disse que sim, ia.

a mesma mesa da sala onde jantei com outras pessoas e conheci outro alguém, maior, melhor, completo, e ri com serenidade nos olhos e me dei a conhecer enquanto real, sem fingimento e manipulação.

a mesma mesa da sala onde descobri que estava apaixonada e que amar não era nada do que sentira até então.

a mesma mesa da sala onde festejei o primeiro natal com a família que escolhera e que me aceitou.

a mesma mesa da sala onde pus flores para me sentir num lar na casa que era a minha.

 

esta casa, de que me despeço agora, destruiu-me e salvou-me, sem me destruir nem salvar, porque nenhuma casa pode ser mais do que é.

e sem dúvida que vou sentir uma falta gritante da segurança que este espaço me deu, abraçando-me sempre que precisei de fugir dos outros e de mim e sempre que precisei de festejar a alegria de estar viva.

não sei o que a próxima me trará. mas duvido, a sério que sim, que me traga tudo, o bom e o mau, o morrer e o renascer, o ódio e o amor que esta me trouxe.

que me traga mais do eu que sou agora.

 

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publicado às 14:05


8 comentários

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De Violinista a 01.09.2015 às 18:00

Porra, vou-te dizer uma das coisas que o meu pai mais me costuma dizer, que "o ser humano é feito das suas memórias".
Porque esta publicação é feita de ti, e a casa foi feita de ti, e vai ficar com essa energia, ou aura, ou sei lá que nome tem, presente entre paredes. Uma espécie de por onde passas deixas um pouco de ti e levas um pouco contigo.

Assim, este tipo de frases bonitas e lugares comum, mas o post está bonito e sentido, a fotografia também, e é isto. Nem consigo fazer um comentário mais decente.
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De M.J. a 01.09.2015 às 18:04

está mais que decente :)
obrigado.

beijos.
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De Pseudo a 01.09.2015 às 21:50

Estou em processo de procura e mudança de apartamento, mas muito mais atrasada do que tu. Daí o meu silêncio e ausência em todos os tascos habituais. (Aliás, nem sei como consegues arranjar tempo para fazer rolar a tasca...)
Estou mortinha que esta fase passe e regresse a calma da rotina diária sem estas preocupações e deambulações pela cidade.
17 anos no mesmo sítio dá para acumular muita tralha mesmo!
Bolas!!!
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De M.J. a 03.09.2015 às 18:52

dezassete anos? eu acumulei tanta em seis que se fosse dezassete ia precisar de dois camiões tir.
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De Pandora a 02.09.2015 às 17:51

#arrepiei
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De M.J. a 03.09.2015 às 18:52

#éporqueésumaquerida
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De Isa a 05.09.2015 às 01:20

não consigo sequer imaginar o desgosto que deve ter sido a mudança, mas acho que se tiveste a capacidade de criar laços tão profundos com essa casa, com a próxima será igual. terás apenas que deixar que o tempo te traga oportunidades de criar novas memórias para te afeiçoares a ela. relativiza (mas não em demasia que também faz mal, eu sei do que falo lol)
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De M.J. a 06.09.2015 às 17:33

como se relativiza em demasia?

(sim, foi mesmo um desgosto do qual ainda não recuperei).

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