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casos de sucesso

por M.J., em 11.04.18

há uns tempos fui convidada para falar num workshop, de um instituto público, sobre o meu testemunho enquanto caso de sucesso a nível de empreendedorismo.

fico sempre de pé atrás com a denominação caso de sucesso.

nos dias de hoje, em que palavras e expressões como startup, inovação, disrupção, tecnologia, empresarial, vinte vinte,  incubadoras e... enfim, essas coisas, estão na moda, acho que se perde um pouco do foco daquilo que é realmente sucesso e daquilo que poderá vir a ser, um dia, quem sabe, depois de muito trabalho árduo e capacidade de resiliência.

 

fui convidada, como dizia, para dar o meu testemunho.

falar um pouco do meu percurso desde que bati com a porta e decidi mudar de vida.

falei, portanto.

expliquei os termos da moda que referi acima, incluindo incubadoras e tudo (e não, não se relaciona com os tratamentos de fertilidade e putos prematuros) e continuei pela minha aprendizagem. que, verdade seja dita, aprendi muito desde que decidi fazer-me à vida de uma forma diferente para que fora formatada. passei pelos clichés todos: vontade de sucesso rápido, desânimo nos primeiros falhanços, incapacidade de tomar decisões estruturais, vaidade nas primeiras conquistas, horários desregulados de trabalho, vontade de desistir, orgulho na capacidade própria, certeza de que, voltar a trabalhar para outrem e ver o meu tempo moldado em função de um salário igual, independentemente do meu muito ou pouco trabalho, jamais.

(ah, e a aprendizagem de que jamais digas, ou escrevas, jamais).

 

enfim, fui falar então.

contei da desistência, do primeiro passo, das portas a que bati, dos apoios que tive e concluí referindo a aprendizagem maior que obtive destes últimos anos:

o resultado não é o mais importante. o que interessa é o caminho percorrido e o que dele retiramos.

é verdade.

podem acreditar.

(a título de exemplo: passei toda a minha vida estudantil a pensar nos resultados. notas. médias. passagem de anos. fui formatada, ensinada que o mais importante eram os resultados. a aprendizagem era feita em decorrência do que me iriam perguntar e avaliar. a avaliação servia não para constatar a minha aprendizagem, mas para moldar como devia aprender. tudo errado. anos e anos em que o único foco eram notas, valores finais, médias, resultados. perdi tanto. deixei tanto para trás. ficou tanto no meio que seria de sobremaneira importante para vingar não só enquanto profissional, mas como pessoa. aprendi isso aos 30. pior seria se o tivesse aprendido aos 60. ou nunca: o mais importante é o caminho, não a meta. a vida vive-se pelo caminho, não na meta).

 

no final da sessão, acompanhada de outros potenciais casos de sucesso, foi dada a palavra a quem assistia.

adultos, pessoas mais velhas, mais novas, gente a entrar na reforma, gente a sair da faculdade.

um silêncio abismal, nada que não estivesse à espera e depois surgiram as primeiras perguntas:

apoios.

dinheiro.

massa.

pilim.

como chegar aos resultados.

que se lixe o caminho.

e logo a seguir, perguntas mascaradas de queixas:

de que não havia suporte para pôr ideias em prática, de que era impossível seguir sem salários, de que era muito bonito falar se não houver ajuda, etecetera e tal, amem, que há contas para pagar e enfim.

 

desisti.

ninguém queria saber da minha história, do meu testemunho ou do raio que me parta.

ninguém estava interessado nos meus ensinamentos, na minha experiência ou onde cheguei. o que interessava era que dinheiro eu fizera, como o conseguira, a que portas batera e se, eventualmente, podia dar emprego a um ou dois:

dinheiro. metas. resultados.

 

e percebi depois, de sobrolho franzido e sem saber o que dizer, que talvez aquelas pessoas fossem mais empreendedoras do que eu:

punham na ponta da suma importância o que faz girar o mundo, o que move o destino.

e que talvez eu, com  esta dose ainda de ingenuidade tacanha, esta ideia pequenita que sem dinheiro não faço, mas só com dinheiro também não, estou condenada a ser para sempre raia miúda, micro, insignificante, passando férias na praia da esquina, comendo ovos com arroz e contentando-me com café de cápsula, detergente de marca branca e serões no sofá já velho. estou condenada a não sair disto e à incapacidade de me tornar numa empresária gigante, vestida de saia casaco beije e cabelo com laca. 

 

e ainda assim, mesmo condenada a não atingir o auge, juro, ainda que repleta de hormonas que não são minhas, repleta de trabalho que me impede de ler sem ser aos bocejos e dias que passam a correr... nunca estive tão satisfeita com quem sou, o que faço e para onde vou.

 

(isto, provavelmente, até ao próximo falhanço. ou à próxima injecção de hormonas). 

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publicado às 14:27


5 comentários

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De amarquesademarvila a 11.04.2018 às 15:48

Ainda estou a digerir o teu texto... Não só porque me identifico com ele mas também porque é tudo em que eu acredito. Tenho duas filhas, uma com 12 e outra com 14 anos, e a nossa filosofia com elas é exactamente essa: Não nos interessam as notas delas, interessa-nos que aprendam, que saibam, que tracem objectivos, que percebam o que precisam de fazer para os alcançar, o sucesso delas depende dos objectivos que traçam e de como os atingem e não dos objectivos dos outros.
Claro que somos vistos como E.T.'s, pelos colegas delas (elas por vezes sentem-se a falar "chinês" com eles, enquanto eles falam de cursos "com saída" elas falam em seguir o curso que gostam, fazer o que as faz feliz...) e pela nossa família (o mau pai pensa que enlouquecemos... vamos deixar as miúdas escolherem o que querem fazer na vida?...).
Também eu deixei tudo para seguir o meu sonho, é duro, é difícil, passo por todos os sentimentos que falas, às vezes todos no mesmo dia, mas não quero voltar atrás.
Não és tu que estás errada, são "eles", os que trabalham para os objectivos pré-definidos por alguém, que alguém estipulou como sendo o "sucesso".
Um abraço

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