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chinesices

por M.J., em 11.07.15

fui aos chineses.

não venham já com merdas. sabem lá o difícil que é ter material para escrever todos os dias nesta porcaria? sabem o que custa? não, pois não? então acalmai a passarinha e deixai-me contar que sim, fui aos chineses.

uma experiência única.

estes chineses inauguraram esta semana, nuns armazéns abandonados perto do bairro. têm grandes letras em vermelho vivo, uma passadeira encarnada no chão e no meio da semana apresentavam um gigante cartaz manuscrito com os dizeres "abertura dia tal".

confesso que estava expectante, mas não preparada para o que vi.

mal cheguei dei de caras com o parque de estacionamento repleto de carros e uma multidão de gente entrando e saindo. a um canto estavam insufláveis onde miúdos saltavam numa alegria histérica e, ao jeito de banda sonora os da weasel (os verdadeiros, os que eu gostava e não este que agora grita ter produzido diamantes com esperma) entoavam que queriam cuidar da nina

tudo a ver com a ver com o ambiente.

quando entrei estaquei. meus senhores é incrível a quantidade de roupa que se apresentava enfileirada e a quantidade de gente que deambulava com ar feliz por entre o armazém descomunal. duas caixas serviam a população consumista e reparei, ainda antes de me embrenhar pelos corredores, que os chineses que recebiam os pagamentos eram extremamente parecidos.

deduzi que fossem familiares, talvez os donos e que por isso tinham uma posição de mais responsabilidade. depois percebi que estava enganada porque fui vendo que afinal eram todos iguais, incluindo os que nos vigiavam, e que a não ser que a politica de filho único tivesse sido largamente violada há uns anos atrás, eles não eram irmãos, eu é que não os distinguia.

muito xenófobo, eu sei, mas caralho se não eram todos iguais!!!

aventurei-me.

deixei a secção das roupas, dos vestidos rendados e das calças de praia onde uma empregada portuguesa dizia a duas velhas que aquela peça era incrivelmente bonita e selecta (juro, a sério que juro que ela disse mesmo isto) e avancei. quando dei por mim estava rodeada por mil flores de plástico, em duas filas, muito direitinhas. no meio de uma das filas duas senhoras com grossas unhas discutiam se as petunias ou as orquídeas (parecem verdadeiras, dizia uma) muito feias, com ares rascas de plástico, eram apropriadas para levar à campa no dia seguinte. e quando eu achava que enfim, de certeza não ouviria pior, os meus ouvidos refinados à palavra casamento fizeram-me parar porque (não vão acreditar, eu sei, mas eu morra já aqui entalada por depois chineses obesos, se não é verdade) um casal, que olhava para uma bola em forma de margaridas brancas, argumentava que aquilo ia ficar mesmo bem no altar.

com mil porcas cheias de ébola, apeteceu-me gritar, no altar? mas alguém pondera mesmo casar-se com flores dos chineses debaixo dos pés do cristo crucificado? mas alguém quer dizer sim com cheiro a plástico a entrar nas narinas? já agora ir de lua de mel para a caparica, com um tacho de arroz na lambreta, não?

o mundo é um lugar engraçado.

saí dali.

havia dezenas de filas de tudo e mais alguma coisa. tapetes, candeeiros, cobertores, velas, perfumes e tudo o que seja possível vender excepto cães. às tantas, quando dei por mim no meio da secção das cenas de cozinha, uma onda consumista rasca e pelintra invadiu-me e podia jurar que precisava de duas caixas de papelão para pintar, três novelos de lã para fazer tricot que não faço, uma toalha de mesa florida de plástico, uma esfregona para a empregada e formas de silicone em jeito de ursinhos para fazer muffins para crianças.

com muito medo dirigi-me rapidamente para a caixa, acabando por, antes mesmo de entrar na fila, dar um saltinho à secção de cosmética. aí duas senhoras de meia idade e quatro adolescentes discutiam acerca das cores de verniz e, mesmo ao lado, uma empregada brasileira aconselhava uma jovem a levar os cílios postiços de dois euros e meio e a máscara de um euro, muito bons que ela experimentou.

nesta altura eu deixara o sentimento de descrença e passara a nutrir uma admiração pelo ser humano! há de facto, gente que põe literalmente tinta e cola da china nos olhos, sem querer saber de alergias, da possibilidade de cegueira e do prazo de validade. e não duvidemos, meus senhores, que a isso chama-se gente com tomates.  

quando me pus na fila (sim, que comprei coisas, deixai-vos estar) uma senhora gorda levava na mão dois conjuntos de roupa para bebés e perguntou ao rapaz, para meu espanto, se faziam embrulhos. é verdade. descobri hoje, não só que há quem queira casar com flores dos chineses, quem ponha tinta da china nos olhos como também, que há gente que compra coisas nos chineses para oferecer a recém nascidos.

sinceramente. isto já é caso para as comissões de protecção de menores. 

enfim. pousei no balcão uma garrafa de plástico para água, de um rosa pink, pastilhas com desinfectante para a sanita, toalhitas limpa vidros e quatro pilhas. o chinês era antipático como o caralho e só por causa das coisas pedi factura com número de contribuinte, que ele aceitou com um resmungo inteligivel.

acreito que me chamou puta em mandarim.

além disso, ninguém me deu um saco e enquanto esperávamos o ok da máquina de multibanco o homem espreguiçou-se e uma velha atrás de mim resmungou que era incrível que uma casa daquelas só tivesse uma caixa aberta.

melhor que isso só mesmo a outra a dizer que as calças eram selectas.

pronto. cheguei a casa orgulhosa, não antes de me deparar com um velho gordo que à entrada coçava os tomates olhando as gentes com curiosidade e o rapaz, que veio ver as minhas compras, pôs no lixo a garrafa avançando que aquele plástico é uma merda e ia estragar a água. experimentei as toalhitas nos vidros e reparei que deixam manchas, a que se alia o facto de as pastilhas da sanita cheirarem a um conjunto de desinfectante de naftalina com fairy e lixivia. 

foi portanto uma magnifica tarde!

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publicado às 17:49


17 comentários

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De nice a 11.07.2015 às 18:51

hahahaha! E as pilhas vão durar 4 dias, vais ver.

(Este é o melhor post que eu já li aqui no sapo.)
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De M.J. a 12.07.2015 às 00:55

cum camandro, isso é um elogio e tanto!
obrigado.

(vamos lá ver das pilhas).
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De Cris a 11.07.2015 às 21:59

Fizeste rir tanto, moça!
Eu deixo-te ir aonde quiseres, para nos presenteares com estas pérolas!
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De M.J. a 12.07.2015 às 00:54

ainda bem que gostaste. sério.
sinto sempre que quando alguém se ri do que escrevo o meu dia se tornou mais útil.
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De marrocoseodestino a 11.07.2015 às 23:24

Depois de 8 horas de trabalho chegara casa, ler isto e acabar a rir quer dizer que é bom, muito bom.
Estava a precisar de algo para me alegrar..
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De M.J. a 12.07.2015 às 00:54

sempre à disposição.
há nada melhor que fazer rir os outros comigo :)
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De bloga-mos a 12.07.2015 às 10:25

A minha genial menina no seu máximo esplendor...
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De M.J. a 13.07.2015 às 21:50

sempre um cavalheiro.
(nós sabemos disso).
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De Pandora a 12.07.2015 às 11:32

Pra tua informação iam-me escapando umas pinguinhas de tanto me rir. E sabes porquê?? Porque fui lá ontem!!!! A red carpet à entrada ainda lá está. E eu a pensar: foda-se, só vim aqui desenrascar copos e pratos de plástico que fiquei de levar para o pic-nic da malta da ginástica.
Mas convenhamos que aquilo é um manancial para boas sátiras. Então vindas de ti, é gargalhada na certa.
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De M.J. a 13.07.2015 às 21:51

AHAHAHAHAHAHAHAHAH

eu fui no sábado à tarde e juro que quando estava a escrever o post pensava: isto era bem era dizer à pandora para irmos as duas e cada uma escrever a sua visualização da coisa, visto que ambas somos daqui.

aquilo é magnifico e acho que deu cabo dos outros chineses todos das redondezas. e mais! no domingo de tarde passei em frente, de carro, e o estacionamento estava à pinha. à pinha.
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De Pandora a 14.07.2015 às 09:40

A culpa é do vento. Não fosse o vento e o povo ia para a praia e cagava nas chinesices.
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De M.J. a 14.07.2015 às 15:20

olha que num sei. havia muita senhora de idade sem ar de praia.
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De marta a 13.07.2015 às 18:33

Estou aqui a tentar meter a leitura em dia (fui de férias e atrasei-me) e dou de caras com esta pérola, fartei-me de rir!!! Se tivesses parado nas calças já valia a pena, saber dos arranjos plasticos para altares é de morrer a rir, mas as pestanas falsas muito boas, são impagáveis.
Com isto, lembrei-me de uma visita que fiz a um chinês há uns anos onde vi um artigo fenomenal. escrevi sobre isso na altura, não te canses com as letras, mas espreita as 2 fotos, eu continuo impressionada até hoje. http://confessoaqui.blogspot.pt/2009/04/dica-de-decoracao.html
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De M.J. a 13.07.2015 às 21:53

a questão é que foi tudo verdadeiro. ninguém consegue imaginar o esforço que faço, às vezes, para não rir.
e ah, se um dia virem uma gorda parada feita parva num sitio qualquer agarrada a um telemóvel ou tablet sou eu a apontar as maravilhas do que vejo para não me esquecer de escrever sobre elas.

ainda que, pensando bem nisso, o que não falta são gordas agarradas ao telemóvel.
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De Isa a 16.07.2015 às 00:00

LOL muito bom! volta e meia também boto as patas em lojas dos chineses.. mais para ciência do que consumo, que na maioria das vezes arrependo-me de gastar lá dinheiro. mas divirto-me bastante pelos corredores deles (não sei se viste a foto da Trampa no FB, achados daqueles só mesmo em chineses muahaha)
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De M.J. a 16.07.2015 às 16:35

ahahahahahahahaha

e essas férias?
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De Maria Araújo a 09.08.2015 às 15:06

Excelente, MJ, excelente.
Adoro os teus deliciosos palavrões.
São ditos/escrito com humor e prazer (sabe tão bem dzê.los na hora certa).

Beijinho

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