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comendo

por M.J., em 08.06.17

(de vez em quando edito textos antigos. são aqueles com que continuo a concordar e que acho que se mantêm atuais. se já leram passem à frente por hoje

 

sempre comi para matar vulnerabilidade.

para matar a sensação de vazio. o conforto emocional. 

talvez por esse facto nunca tenha sido só gordinha, com ossos largos, fortezinha.

não.

fui sempre gorda.

gorda a sério. umas vezes menos, outras vezes mais. acima do peso, pelo menos. as coisas têm nomes e se os nomes são fonte de discriminação a culpa não é deles. mudá-los não altera a discriminação das coisa e o mais que podemos mudar são as coisas - se passíveis de mudar - ou as pessoas.

 

 

quando crescemos e vivemos na serra há pequenas coisinhas que usamos como conforto pessoal.

que nos são dadas como presentes.

que são apreendidas como dados adquiridos:

  • o pai do pai do pai do pai dos meus pais vergou-se na terra para fazer pão e da terra tirou o sustento da família.
  • o pão era saudável.
  • o pão era fonte de vida.
  • o pão era jesus cristo e não se renega cristo.
  • duas broas asseguram sustança, vida e trabalho.
  • como dizer-lhes portanto, que o pão faz mal, que o pão engorda?

 

  • o porco era a carne do ano.
  • um porco no curral, meio porco na salgadeira assegurava vida e sustento de uma casa.
  • de um porco aproveita-se tudo.
  • as orelhas e testículos, tripas e chispes.
  • como dizer-lhes, portanto, que a carne de porco faz mal, que deve ser evitada? (se é que faz). 

 

e depois, sejamos sinceros, só quem nunca comeu uma chouriça caseira - tripas lavadas em limão, recheadas de carne em vinha d'alhos durante uma semana, fumadas na cozinha, todas alinhadinhas e depois cozidas em vinho - pode dizer que não gosta.

só quem nunca pôs à boca arroz de cabidela - com sangue do galo maior do peleiro, guisado e temperado com os devidos condimentos, o sabor avinagrado e gordo - pode achar que não presta.

só quem nunca comeu um rojão - feito em banha de porco, quase frito, com uma folhinha de louro e sal, a carne suculenta mesmo ao pé do osso - pode discriminar a gordura.

só quem nunca lambeu os ossos da suã - cozidos com o rabo e a orelha, cenoura e couve e uma coxa de galo gordo - pode encolher os ombros, rogando pragas a carne vermelha.

há coisas boas e, dizer que não prestam para alimentar o ego quando queremos alimentar-nos de forma saudável, é estúpido.

não deixam de ser boas apenas porque não podemos comê-las.

 

eu descobri as maravilhas da comida desde que me lembro.

aos seis meses, por exemplo, fui levada para o hospital com uma mão toda queimada porque não me davam a sopa com a velocidade que esta pequena betoneira queria e, em protesto, enfiei a pata no prato com a sopa a ferver.

aos dois anos desatei em prantos num piquenique familiar e quando me perguntaram o motivo, respondi por entre lágrimas "que queria comer mais e não conseguia".

quando aprendi a ler descobri as delicias de partilhar o desfolhar de páginas com rebuçados de dois escudos ou gelados de cinquenta.

festa da terra não era sinónimo só de festa: eram os acepipes melhorados, com bolos de pastelaria, pudins, aletria e mousse de chocolate com leite condensado e natas.

natal eram os presentes mas também tabletes de chocolate, caramelos, rabanadas e leite creme.

praia, quando havia era só sol e mar acompanhada de bolas de berlim com creme e gelados que não se vendiam na serra.

 

perante uma dor, na adolescência, hormonas descontroladas, sentimentos tristes, descobrem-se bolachas novas, chocolate quente espesso, com natas, salada de fruta com vinho do porto e açúcar.

o pão quente, com manteiga a escorrer era merenda de domingo em casa da avó. também haviam omeletas aproveitando-se o azeite da fritura para mergulhar a broa esfarelada.

uma noite de inverno com uma manta e séries torna-se muito mais acolhedora se partilhada com morangos e chantili, compota de abóbora com requeijão e pão fresco.

 

quando procurei uma nutricionista, pela primeira vez, percebi que tinha feito toda uma vida de coisas erradas

aprendera a alimentar-me tão mal como aprendera a lidar com as minhas emoções e com a minha anormalidade social.

no entanto, a partir do momento em que quis aprender, a responsabilidade foi minha.

todos os anos a partir daí, que continuei e continuo gorda, com excesso de peso, obesa até, são uma responsabilidade minha.

não faço tanto exercício quanto devia e continuo, em momentos de vulnerabilidade, a procurar um aliado na comida.

os problemas são mais simples quando comemos uma barra de tablete com caramelo e amêndoas.

os dias são menos cinzentos quando há uma fatia de pizza com queijo derretido.

a ansiedade morre um bocadinho quando saboreamos um éclair de chocolate ou uma fatia de pão-de-ló de ovar.

acalmo os nervos quando levo à boca lentamente, duas ou três batatas fritas.

e a vida tem mais sentido com um pão da avó, quentinho, repleto de manteiga e uma meia de leite docinha.

 

é no entanto, uma responsabilidade minha.

tenho a informação toda que me diz que a gordura que ingiro não me faz bem, que o açúcar não me faz bem, que a carne de porco não me faz bem, que o pão, sustento da vida da minha família, não me faz bem. e é minha obrigação, minha responsabilidade o bem que ela não me faz se eu continuo a ingerir. 

 

não posso portanto, dizer que é a sociedade que está errada ao não colocar imagens de pessoas gordas, como eu, a vender um vestido de noiva.

é um facto que um vestido de noiva numa pessoa gorda ou extremamente magra não fica tão bem. é a minha opinião.

o que não é saudável não fica bem.

não sou apologista de vender a imagem da magreza aliada à anorexia. não acho bonito corpos onde se notam o esterno no meio das mamas. prefiro ver curvas roliças que encham um vestido, ancas e cu que se veja. mas daí à obesidade, à gordura em ondas vai uma grande diferença.

daí a continuar a comer e ainda me sentir no direito de exigir que o mundo me ache bela de todas as formas e feitios é um erro.

daí a alimentar-me como um pequeno porco mesmo com risco de ficar doente e ainda exigir aparecer numa capa de revista é burrice minha.

 

a minha família podia não saber, há trinta anos atrás (trinta meu deus, tantos) o que devia ou não comer. o que era ou não saudável até porque o que comiam na altura, tendo em conta o trabalho que tinham e os alimentos que dispunham, era efectivamente o correcto.

mas eu tenho obrigação de saber mais. 

 

isto, meus senhores:              

1.jpg

 não é isto:

2.jpg

 e isto:

3.jpg

 é a mesma coisa que isto, só que sem maquilhagem:

5.jpg

   

4.jpg

 

que por sua vez não é igual a isto:

6.jpg

 ou a isto:

8.jpg

 

combater anorexia com mulheres saudáveis é uma coisa.

combater a doença da anorexia com a doença da obesidade é só estupidamente obtuso. 

 

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publicado às 10:00


17 comentários

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De Cris a 13.08.2015 às 17:55

Eu sei que o teu post é pedagógico, mas fiquei com vontade de comer qualquer coisita e já volto!
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De M.J. a 13.08.2015 às 18:48

também eu. também eu.
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De Fatia Mor a 13.08.2015 às 18:00

Tenho um post parado a meio sobre isto mesmo... Acho que já não preciso de o escrever.... ou talvez sim, não sei... depois verei. És uma corajosa por falar disto assim, de forma nua e clara, com discernimento que poucas vezes vejo.
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De M.J. a 13.08.2015 às 18:48

obrigado.
as pessoas têm medo de dizer certas coisas com medo do socialmente aceitável. eu também tenho mas neste assunto nem por isso :)
escreve sim. :)
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De Anónimo a 13.08.2015 às 19:58

O excesso de peso é tão ou mais perigoso para a saúde do que o peso baixo. O problema é que as pessoas estão habituadas e não se chocam quando alguém morre porque tinha peso a mais. O fulano tal morreu de avc, teve de amputar um pé por causa da diabetes. Aconteceu, era velho, coitado. Não. Aconteceu, porque era estúpido, porque não seguiu as recomendações dos médicos. Agora se morre uma miúda de anorexia, já é culpa da sociedade. Ambas as coisas são tristes e ambas deviam ser combatidas. Mas não me venham com tretas de que a anorexia precisa de mais foco que a obesidade, porque é mentira. Basta ver os números. Claro que choca mais ver uma miúda de 15 anos morrer de anorexia do que um velho de 60 morrer de avc ou diabetes, mas por cada miúda que morre disso, há 30 ou 40 velhos que morrem de complicações por excesso de peso. Se começarmos a incentivar isso, muito mais vão morrer. Todos devemos ser mais confortáveis com o nosso corpo, mas umas estrias e um bocado de celulite são muito muito diferentes de obesidade mórbida. Assim como uns ossos mais salientes são muito diferentes de anorexia ou bulimia.
Neste momento tenho a minha mãe doente porque ela se recusa a fazer dieta. Os médicos já avisaram, toda a gente já avisou. Provavelmente vai ter de parar de trabalhar porque está com excesso de peso. Quando ela se queixa, eu digo-lhe que se em vez de se queixar, que deixe de comer porcarias. Sou dura e muitas vezes sou má com ela. Tu não tens pena de mim? Pergunta ela. Eu digo-lhe que não. Não tenho pena nenhuma e se ela tiver de deixar de trabalhar porque abdicar de um quilo de gelado por dia é demais para ela, que não conte com a minha ajuda. Ela diz que eu não percebo porque sempre fui magra. Pois, mas eu sou magra e gasto quase 400 euros por mês para não ficar mais magra. Deves pensar agora que eu sou maluca. Tanto dinheiro. Mas sou mesmo, é por ser doente mental que não engordo. Gasto rios e rios de dinheiro para manter o meu peso, porque engordar é impossível para mim. Ela só tem de levantar o cu do sofá e deixar de comer coisas que fazem mal.
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De M.J. a 16.08.2015 às 18:02

não podia concordar mais. e foi um aspecto que me esqueci. a obesidade mata bem mais que a anorexia. mas muito mais e mesmo assim acha-se importante combater a anorexia com obesidade.

pior: é muito mais fácil ser obeso que anoréctico, na média das pessoas. é preciso disciplina, na verdade, para ser anoréctico. já para ser obeso, na maioria dos casos, basta começar por ser preguiçoso.
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De belitaarainhadoscouratos a 13.08.2015 às 21:52

a minha infância não foi na serra (nem no mar, mas perto) e no entanto em termos do que se comia, foi igualzinha à tua. muita coragem para o que dizes.
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De M.J. a 16.08.2015 às 18:02

isso é porque a serra e o mar, neste caso, têm poucos quilómetros a separá-los.
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De P. Barcellos a 13.08.2015 às 22:23

O "saudoso" bomIdiota, tinha no seu blog um post sobre isto, mas claro, nao desta qualidade e magnanimamente escrito desta forma. Quanto à descrição do repasto, só para dizer que já devo ter engordado para aí um quilo só de ler e babar-me.
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De M.J. a 16.08.2015 às 18:03

até eu engordei, meu caro, até eu. há repastos que até pelo cheiro acoplam gordura nos meus presuntos.

(muito obrigado pelo elogio.)
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De Maria Alfacinha a 13.08.2015 às 22:52

Estou mais do que de acordo com o que dizes em relação à moda das gorduras. Nada contra as roliças. Nem podia, porque estaria contra mim :P e enquanto a gravidade não for mais forte continuarei a ter rabo e mamas e coxas "que se vejam". Mas esta ideia que tentam passar que uma mulher obesa é uma mulher de bem consigo mesmo, ou uma mulher que faz o que quer é tão prejudicial quanto a da extrema magreza.
Agora... irra mulheri! este post deixou-me com uma fome...
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De M.J. a 16.08.2015 às 18:04

"Mas esta ideia que tentam passar que uma mulher obesa é uma mulher de bem consigo mesmo, ou uma mulher que faz o que quer é tão prejudicial quanto a da extrema magreza."

exactamente. ser saudável e estar de bem consigo mesmo ótimo. ser obesa a sério e estar de bem consigo mesmo é tão fantástico como ter uma perna partida e dizer que não vale a pena endireitá-la, que é melhor amputar, que gosta assim.
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De Genny a 14.08.2015 às 09:43

"sempre comi para matar vulnerabilidade. sensação de vazio. conforto emocional." isto sou eu.....
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De M.J. a 16.08.2015 às 18:05

e eu, meu anjo, e eu. os avec já chegaram?
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De Pandora a 15.08.2015 às 18:08

Nascida e criada numa aldeia, recordei muitos costumes e hábitos alimentares na tua descrição. Mas há que fazer algumas ressalvas: o pão era caseiro, amassado, deixado a levedar, cozido em forno de lenha. Não era o pão industrial cheio de fermentos químicos que agora se come, porque é o que se vende. E as pessoas acham que são intolerantes ao glúten (morte ao glúten, coitado do desgraçado), quando o problema do pão não é o glúten mas os fermentos químicos.
A carne consumida era de animais criados nos quintais. Até podiam comer alguma farinha, mas a base da sua alimentação eram os legumes e as cascas de batatas, as couves, o milho, os nabos, as abóboras, que vinham desses mesmos quintais.
Em dias de festa havia todas essas iguarias e doçarias. E os enchidos caseiros, e os rojões, até me salivo toda quando me lembro a festa que era a matança do porco, uma ou duas vezes no ano.
Se era uma alimentação totalmente saudável? Não. Pecava pelas gorduras, pelos molhos apurados, pelos condimentos. Mas os alimentos em si eram mais biológicos que os agora apregoados biológicos que se vendem a preço de pepitas de ouro.
Eu, por motivos de saúde, que se revelaram muito cedo e se mantêm até hoje, sempre tive de ter cuidados alimentares. Se abusava nas gorduras era certo e sabido que ia ter uma crise de vesícula. Sumos com gás nem pensar. Doçarias só em dias de festa. O famoso carneiro assado em forno de lenha ou os rojões, ou os torresmos, ou os rojões da tripa, sim, sabiam bem, mas eu também sabia que tinha de me conter, caso contrário tinha crises de fígado e estômago que me atiravam para o hospital. Durante boa parte da minha infância andei a tomar xaropes que mais não eram que protetores de estômago para suportar a comida, senão vinha tudo para fora.
Recentemente, e por ter feito testes a intolerâncias alimentares, percebi um pouco melhor de como o meu organismo funciona, e a par das minhas condições de saúde a nível gástrico, sou obrigada a fazer alguns malabarismos e restrições alimentares. Mas caramba, que bem que sabem uns rojões com batatas cozidas com a pele e umas nabiças. E se tiver oportunidade de os comer, venham eles. Uma vez não são vezes, e acredito muito que a alimentação não tem de ter limites e restrições, desde que haja equilíbrio e moderação.
Desculpa o testamento.
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De M.J. a 16.08.2015 às 18:06

sim, faltou-me esses aspectos. o pão era caseiro, o porco comia coisas de casa e não se comia nem pão nem porco nas quantidades que se come hoje. tentei dizê-lo, implicitamente, mas escapou.

ahhhhh, rojões com batatas fritas. como eu comia agora um rojãozinho a escorrer gordura em cima de uma fatia de broa de milho acabada de sair do forno. minha santa engrácia.
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De C.S. a 08.06.2017 às 12:15

Há tanta verdade nas tuas palavras...E coragem também.
E as imagens que escolheste são muito ilustrativas, porque de facto uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Mas se perguntares à maioria das pessoas todas te dirão que essas raparigas são gordas... Umas muito gordas, obesas, e outras gordas giras, mas gordas.

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