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contextualização do último post*

por M.J., em 25.05.15

* escrito à pressa com uma agulha no braço esquerdo.

 

fui tirar análises. uma pessoa levanta-se relativamente cedo, não põe nada no buxo e segue em direcção à clínica, com urina na mala. desta vez apostei por fazer xixi em casa, não suporto a sensação de entregar aquilo no frasco acabadinho de fazer, ainda quente. são coisas minhas, que se há-de fazer? no entanto, posso garantir já que transportar a própria urina na mala não é muito agradável e que passamos grande parte do tempo a equacionar cenários em que papéis, documentos, maquilhagem e tralha se encharcam em xixi.

muito lindo.

quando cheguei a clínica tinha mudado de instalações. desisti e fui a outra, quase a pensar em voltar para casa com o xixi e tudo. à entrada  dei de caras com um grande aviso a dizer que teria direito a pequeno almoço. fiquei contente. uma pessoa enche-se de papas de aveia todas as manhãs e o estômago já reflectia a falta delas.

na recepção tinha à minha frente dois idosos. 

o primeiro, mais novo, falava com voz de menina à menina do atendimento. pois que, dizia ele, lhe doía o coiso e não era capaz de mijar, ai desculpe, menina, urinar, que a gente somos da aldeia e falamos assim. a enfermeira tentava explicar-lhe que não, não era ela quem o ia consultar, que ainda nem sequer estava na triagem, mas o homem continuava no rol de queixas, que lhe doía, estava escuro. 

pensei vomitar.

o velho seguinte falava mais alto, de zangado. doía-lhe uma perna de uma pancada do genro e se não fosse a filha matava aquele filho da mãe dele. agora não conseguia caminhar. olhei-o de alto. tinha ar de velho safado e mandão. continuou a dizer que fora da gnr e se fosse no tempo dele, ah, a ver se o mal parido lhe tocava.

achei bonito.

quando a enfermeira me chamou eu estava com uma fome de lobo. ela olhou os meus braços com descrença. perguntou se já alguma vez fizera análises, dera sangue. disse-lhe que sim, de trombas. pensei até em avançar que era sempre difícil e que toda a gente empunhando seringas queixava das minhas veias, mas armei-me em difícil. ela espetou. não encontrou nada. voltou a espetar comigo a olhar atentamente e nadinha de nadinha.

estava nessa altura muito corada.

tive pena da moça, disse-lhe que não se incomodasse, que eu estava habituada a ser retalhada, se ela olhasse com atenção até via cicatrizes mais fundas do retalhamento. que se acalmasse que não ia desmaiar e não tinha medo de agulhas. e assim como assim, que fosse espetando que eu ia para o telemóvel.

por volta da quarta tentativa jorrou sangue que nem uma fonte.

quando saí, braço a ficar preto e uma série de pensos espalhadas, ao género de figura de guerra, o velho com dores no coiso estava sentado de lado, com ar ameaçador, olhando-me e equacionando relatar novamente todas as dores. virei costas muito rápido e só quando cheguei ao carro me lembrei que enfim, tinha direito a um pequeno almoço de graça que não comi.

estou por isso, a enfrascar-me agora de aveia e farelo de milho.

sou uma sortuda. 

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publicado às 11:50


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De Maria Araújo a 25.05.2015 às 17:17


M.J., parece-me que tens as veias fininhas...como as minhas.
Mas caraças, a mulher que te fez isso não devia meter a agulha sem encontrar uma veia saliente.
Ou experimentava noutro braço.
Olha, não gostei, pronto!
O xixi, levo-o sempre de casa. Embrulho o frasco em papel higiénico, ou lenço de papel, para não ficar o cheiro (que não fica) na mala.

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