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conto-te eu uma história, sim?

por M.J., em 25.11.15

conta-me uma história avô,

e ele sentava-se ao meu lado e contava-me longas histórias que inventava, na hora, de meninos e lanches, mochilas e cães maus. ficávamos nas escadas nuas, ao lado do velho curral, onde a avó ordenhava a vaca pinta, rindo entre dentes da falta de imaginação do avô, em histórias onde os cães eram sempre maus, roubavam as sandes que eram sempre de queijo que os meninos levavam sempre nas mochilas.

agora arranja-te tu, 

dizia-lhe ela quando ele atrapalhado não sabia como satisfazer a minha curiosidade, o pedido sempre na ponta da língua,

conta-me uma história avô.

um dia calquei um ancinho que estava virado de espetos no ar. brincava sozinha, numa grande corrida onde entrava um imaginário cão mau e o pé escapou-me. na ansiedade do que acabara de acontecer, o pé de catraia, seis, sete anos, sei lá, gritei pela avó que gritou pelo avô que pegou em mim e me levou ao colo, na sua mota, coberta com uma capa até ao centro de saúde mais próximo. não sentia o doer no pé. ia encostada, debaixo de uma grande capa de lona, sentindo o vento que não me chegava, protegida de ancinhos e espetos e cães, nos braços do avô.

conta-me uma história, avô

a enfermeira a limpar-me o pé e o avô, perdido no sangue, a olhar-me de medo, o cão, o menino, a mochila.

conto-te hoje uma história avô:

não chorei, não consigo. olhei-me no espanto de me ver sem ti, não acreditando na tua falta. entrei no que sou e pensei nos dias, nas horas, nos telefonemas que não fiz, nas vezes que não te perguntei, nos dias que dormi sem saber de ti e das tuas histórias. olhei-me no espanto de me ter deixado passar pela vida sabendo que estavas e que eu estava e que nos falávamos assim, nos encontros fortuitos. lembrei-me de tudo o que te devia ter dito e faltaram-me as palavras e as lágrimas e permaneço aqui, sem saber que te diga, agora, na inutilidade das palavras que não servem de nada e não prestam.

os muros do caminho tinham flores de outono, cobertas, repletas, de um rosa onde outrora haviam flores de verão, em longos fios de rama, de um roxo azulado que eu arrancava e fazia coroas. as mesmas flores que tu fazias entrar nas histórias do cão e do menino e do pão com queijo. estavam repletos ontem e hoje de flores rosas, um outono de sol, num dia de folhas secas a cair das árvores que plantaste. estás em todo o lado e ainda assim estavas ali mesmo sem eu querer ver o que restava do que estavas. e não chorei. acredita que não chorei mesmo quando me lembrei das histórias do cão, dos limões que mandavas, para a menina, e das vezes que não te disse o que queria dizer e que não era nada.

choro agora que finalmente pude pegar nas palavras escritas e transformá-las nas lágrimas que queria ter chorado e não chorei.

desculpa. eu devia ter sido melhor e chorado na ultima vez que te vi.

desculpa avô.

haverão sempre cães maus na minha vida e agora tu não estarás lá para dar um fim diferente às histórias.

e eu terei de dizer sempre a palavra fim quando falar no meu avô.

 

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publicado às 16:56


35 comentários

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De Maria das Palavras a 25.11.2015 às 17:50

Que lágrimas tão bonitas
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:46

tu és tão querida.
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De Magda L Pais a 25.11.2015 às 18:01

beijo
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:46

obrigado por estares ai.
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De Be a 25.11.2015 às 18:33

És muito bonita, sabes? O teu avô de certeza que saberia.
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:46

tenho tanto medo que não...
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De blogdocaixote a 25.11.2015 às 19:31

Um grande abraço.
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:47

recebido. obrigado.
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De Maria Araújo a 25.11.2015 às 20:12


E esta foi uma bela homenagem que lhe deste.
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:47

foram só lágrimas egoístas.
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De Maria Araújo a 25.11.2015 às 20:29


Uma bonita homenagem que lhe prestaste.
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De pequenosencantos a 25.11.2015 às 22:06


Também tenho tantas saudades do meu...
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De Pandora a 25.11.2015 às 22:28

"na inutilidade das palavras que não servem de nada e não prestam" só te posso deixar um abraço. Porque nestes momentos nada mais vale. Apenas o calor, ainda que à distância, de um abraço.
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:47

que senti.

muito, muito obrigado.
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De Dona Pavlova a 26.11.2015 às 09:02

E que linda história esta...
Um beijinho e um abraço muito apertado.
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De M.J. a 26.11.2015 às 16:47

fico sem palavras.
muito obrigado.

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