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crescimento

por M.J., em 26.02.18

não é a idade que nos traz maturidade mas as experiências por que somos obrigados a passar.

ou que escolhemos.

ou que nos impomos.

é o vivenciar, o sentir na pele que nos faz sentir empatia pelo Outro, nos faz aumentar a capacidade de percepção de quem nos rodeia e de nós próprios.

evidentemente que a fórmula não é simples.

o rapaz diz muitas vezes que crescer e viver não são sinónimo de aprendizagem e há pessoas que apenas se especializam a aumentar os seus defeitos e a viver na base de crenças que crescem na medida do raciocínio.

estranhamente entendo isso. 

 

quando decidimos que esta era a altura de engravidar (e não, não vamos ficar grávidos) eu não tinha grande empatia por algumas situações de que lia ou tinha conhecimento real.

não nos confundamos.

continuo a não ter por muitíssimas situações. continuo a revirar os olhos quando vejo putos aos gritos no meio do supermercado,

mas os filhos não são putos para sempre

diz-me ele;

continuo a não sentir o mínimo apelo para pegar num bebé ao colo,

mas os filhos só são bebés um ou dois anos,

lembra ele;

continuo a fugir de mulheres que falam da maternidade como se isso fosse a única coisa que lhes serve na vida,

mas ninguém disse que tu tens de ser igual ao outro,

recorda-me ele.

começo no entanto a perceber, ainda que não entendendo a total dimensão da coisa, algumas circunstâncias.

 

uma vez, há uns anos, encontrei um blog de alguém que escrevia para um futuro filho.

era uma mulher que, com graves dificuldades em engravidar, escrevia todos os dias cartas para um bebé que haveria de conceber, explicando-lhe os processos a que se submetia para o efeito.

os textos eram melosos, cheios de floreados e detalhes que achei quase animalescos. do género "querido filho, hoje o papá deixou a sementinha dele dentro de mim e depois eu fiquei à tua espera, com as pernas levantadas, sentindo que era desta. mal posso esperar para te sentir nos meus braços". 

aquilo pareceu-me brutalmente ridículo. não a história da sementinha ou das pernas levantadas. mas sim a questão de alguém se sentir à vontade para expor a um futuro filho - e ao mundo - as práticas sexuais para a concepção.

na altura estava longe de perceber o desespero de alguém que quer engravidar e não consegue. na verdade ainda estou. acho que estarei sempre. depois da ansiedade inicial que foi "olha, queres ver que afinal sou defeituosa?" dei-me conta que isso não provocava em mim o sofrimento atroz que encontrei em mil fóruns, chats, blogs e afins das internets do mundo.

não provoca. há um diagnóstico, um tratamento e os caminhos a seguir. bastante simples, diz a médica de sorriso no rosto. e eu acredito. e mesmo que não acreditasse, depois do choque inicial, percebi que não me causava dores e ansiedades, frustrações e anseios, como os que li e me relatam. 

no entanto, consigo perceber.

estranhamente agora, com o correr da vida, consigo entender a dor, a ansiedade e a frustração de alguém que todos os meses aguarda um coração cheio de esperança desfeito em nada num momento para o outro.

consigo entender, ainda que não o sentindo e como tal não podendo ter total empatia, mulheres que sempre almejando serem mães, têm dificuldades em que isso aconteça.

consigo entender, sim, pela primeira vez.

não reviro os olhos já, com tanta força, como revirava antes a relatos de gravidezes que não ocorrem e mães que falam para uma barriga vazia, para um filho que não existe. 

não o sinto, é certo, sendo eu perita em sentir, mas entendo.

 

o que nos faz amadurecer não é a idade, repito.

são as circunstâncias das vivências a que nos submetemos. 

e é nessas alturas que sinto algo que tão poucas vezes senti: orgulho em mim.

não é bonito de admitir, não é sensato sequer e dá às palavras uma aura de arrogância.

mas não consigo evitar sentir uma satisfação própria por perceber que, ao contrário do expectável, a idade, as vivências, as experiências e os obstáculos não me dão a amargura que me acompanhou o crescimento. não me transformam na pessoa seca e azeda, com menos paciência e incapacidade de perceber o outro.

é o contrário.

e fico tão contente por isso!

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publicado às 10:33


3 comentários

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De Quarentona a 26.02.2018 às 10:57

Acredito que o sorriso da médica te ajuda a teres serenidade perante mais uma contingência da vida, porque é disso que se trata, uma mera contingência.
Eu estou com o rapaz, não tens que ser igual ao outro ;))))
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De Joana B. a 26.02.2018 às 16:52

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De andreina a 28.02.2018 às 14:36

Oh MJ, estou feliz por ti e do teu percurso e por nos permitires (a nós leitores) acompanhar-te! Vai ser um caminho mais custoso mas havendo vontade tudo se faz!

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