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não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas antes da missa era a catequese.

nós, que nos conhecíamos da escola, chegávamos mais cedo e ficávamos no átrio em correrias de brincadeira.

a catequista era uma miúda nova que se aperaltava na honra concedida e lia-nos o catecismo que comprávamos no início de cada ano.

uma vez cortei as imagens do catecismo todas, e colei-as num caderno velho, na minha própria história, ao lado de outras cortadas de uma revista que os senhores jeovás deixavam lá em casa, antes da mamã os expulsar.

de vez em quando, o senhor padre, calvo, afável, maneiroso, baixinho, pequenino, voz felina, barba feita perguntava-nos o credo, fazendo cara feia quando não sabíamos.

o padre está num lar, faz mais de dez anos, acabado de velhice.

 

não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas quando podia, depois da catequese, fugia da igreja:

corria desalmadamente e ficava na terra em frente de casa, fazendo bolos de lama ou escondida no meio do milho até ver a dona lurdinhas, que mais santificada naquela hora, bamboleava-se afirmando ao mundo que ia fazer o arrozinho.

a dona lurdinhas morreu, vai fazer três anos. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas quando não podia fugir ficava ao lado dos outros todos, bem alinhados, mesmo na primeira fila.

a meio da igreja o coro cantava, desengonçadamente, num orgulho desafinado dos seus membros em trajes de domingo.

eu levantava-me quando me tinha de levantar e sentava-me quando tinha de me sentar.

os minutos arrastavam-se na voz monocórdica do padre. e na hora da saudação eu ia muito saltitante dar beijinhos a conhecidos e família, que a mamã assim ensinara, incluindo ao avô que me segredava piadas.

o avô morreu, vai fazer dois anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas dizia-se que o padre tinha um filho e muitas amantes.

dele só sabia que falava baixinho e que apertava as bochechas com muita força. e que tinha uma irmã que nos esperava na saída da escola, só para conversar.

a irmã do padre desapareceu, vai fazer dez anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas nunca ouvi uma palavra do que era dito, fosse em que altura fosse.

conseguia escutar as primeiras leituras, em pessoas que saiam dos seus bancos e liam alto, depois de pigarrear muito, numa honra de distinção.

depois as palavras uniam-se umas nas outras e eu precisava de contar os azulejos, as flores pintadas no tecto ou os botões do sacristão, na camisa branca.

o sacristão desistiu, vai fazer tantos anos que nem sei. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas alguns domingos, quando ficava sentada na ponta, conseguia fugir a meio, por uma das portas laterais. nessa altura refugiava-me na lojinha do lado, povoada por homens que falavam, riam alto e diziam palavrões, numa socialização normal.

eu pedia um rebuçado de caramelo, ao dono que era surdo, e ficava num canto, esperando que chegasse ao fim para, minutos antes, entrar devagarinho.

o dono morreu, vai fazer mais de quinze anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

e eu ia.

mas deus nunca me agradeceu.

 

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publicado às 11:30


6 comentários

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De Anónimo a 27.02.2017 às 12:51

Eu também era assim!!
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De M.J. a 02.03.2017 às 14:31

bicho do mato?
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De Cristina a 27.02.2017 às 13:12

belo texto, MJ.
[o final do 1.º parágrafo, o do padre, não teve direito a bold?... ;-) ]
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De M.J. a 02.03.2017 às 14:31

não reparei, quando formatei...
olha, agora fica.

(mas obrigada).
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De Ricardo_A a 27.02.2017 às 13:21

Deviam fazer um estudo junto dos ateus a indagar as principais razões de serem. Desconfio que as práticas religiosas impostas na infância e adolescência, juntamente com alguns figurantes religiosos, estarão no topo da lista. Destacados.
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De M.J. a 02.03.2017 às 14:31

sem dúvida nenhuma.

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