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era uma vez uma história triste

por M.J., em 07.01.15

era uma vez, pela vigésima vez, um casal que se suportava na rotina dos dias.

dormiam juntos, na mesma cama, afastando os corpos, um do outro, no asco que provocava a pele nua, no toque de um corpo.

tratavam-se mal.

com palavras que ouviram uma vida inteira. repetiam um ao outro coisas como puta, cabão, filho de uma égua.

comiam juntos, na mesma cozinha onde comiam há mais de quarenta anos.

tinham os filhos criados.

acordavam cedo, calejavam as mãos.

viviam, sobreviviam, seguiam.

 

às vezes ele chegava bêbado a casa depois de uma noite de copos, na única coisa que fazia, quando saía. sempre o fizera, tal como o seu pai e antes dele o pai do pai.

ela já o avisara que ele tinha um problema com o vinho e que devia fazer o tratamento como o vizinho do lado, que estivera internado e agora não podia ver álcool. ele rira-se na cara dela, dentes caídos, e bebera mais um copo, lábios esticados, do garrafão ao lado da pia, na cozinha.

 

viam na televisão coisas como novelas.

ele apagava o aparelho quando ela se sentava, cansada, derreada, a ver.

as putas da televisão só enganavam as pessoas. mulher decente não vê televisão. faz o jantar e vai dormir.  às vezes queria batê-la mas a polícia já lá fora casa e ele desistira da ideia, com medo da cadeia.

sua puta, dizia,

seu cabrão, ela respondia.

e assim se passaram os anos.

 

um dia ela acordou e ficou parada, quieta, na manhã que chegava.

tinha passado uma vida ao lado daquele homem. não sabia mais nem melhor. não sabia quem podia ter sido. nunca pensara nisso sequer.

trabalhara uma vida. ouvira-o chamar os mimos com que a presenteava em palavras. aturara-lhe as bebedeiras e os cabelos no ralo.

não sabia nada. só que estava farta. cansada. derreada e queria ver a novela, que passava às sete.

 

foi à cozinha.

a manhã clareava. na gaveta do fundo estava a faca comprida de matar o porco. pegou-lhe com curiosidade, na lâmina afiada. foi ao quarto. cheirava a bafio e a álcool e ele dormia com a boca aberta. não hesitou um segundo e espetou-lhe na garganta, mesmo no sitio onde o vira, anos a fio, a espetar nos porcos que criava no quintal.

 

não deitou muito sangue o desgraçado.

ela deitou-se ao lado dele e esperou. às sete ia dar a novela.

dorme bem, seu cabrão, despediu-se, antes de se virar para o lado e dormir.

em paz.

 

(o que foi? unicórnios e arco-íris é na tasca do lado).

 

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publicado às 15:57


5 comentários

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De Gaffe a 07.01.2015 às 16:22

É exactamente destes mini-contos que deveria viver o "Hemisférios".
:(
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De M.J. a 07.01.2015 às 16:28

podemos sempre fazer isso.
e começar já hoje...
está nas tuas mãos aliás... porque é a tua vez de escrever :)
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De Gaffe a 07.01.2015 às 16:36

Prometes-me que este pode fazer imediatamente parte do novo plano?

A verdade é que já não sei o que hei-de fazer à nossa heroína assassinada! A mulher não morre nem me sai de cima!
:)
Vou alterar uma ou outra coisita, fazer importação do ficheiro dos nosso post e enviar-te para não perderes nada do que fomos escrevendo.
Depois recomeçamos, ok?
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De M.J. a 07.01.2015 às 16:39

no último texto que escrevi já era para te mandar um mail a dizer que estava completamente empancada.
deixo nas tuas mãos:) e concordo desde já com a opção que tomares.

(e sim, este pode ser levado para lá, desde que seja na sua integralidade. mesmo com a última afirmação:-)
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De RC a 08.01.2015 às 00:45

Ja te disse que gosto mesmo muito do que escreves? (unicornios incluidos)

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