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da cobardia

por M.J., em 17.02.15

o rapaz ofereceu-me uns ténis no fim de semana.

eu ali com uma caixa de chocolates para lhe oferecer (sim, sim, pensei que seria uma surpresa porque ia contra o que combinámos) e ele com o raio dos ténis caros.

o problema das prendas é mesmo esse. no natal, então, é um drama:

há dois anos ofereci a uma amiga uma caixa mini de bombons - porque tínhamos combinado que não haveria troca de prendas - e ela ofereceu-me uma caixa de maquilhagem, cara, fazendo com que me sentisse mal por estar a ser forreta. este ano ofereci-lhe um perfume caro e ela deu-me uma planta, comprada num supermercado, ficando a sentir-se mal. acho que seria muito mais fácil se as pessoas avisassem com antecedência qual o valor do que estavam dispostas a oferecer, evitado-se assim momentos constrangedores.

 

claro que não sou apologista de darmos tralhas uns aos outros.

para isso mais vale darmos beijinhos e já está. há uns anos, por exemplo, a funcionária do escritório onde trabalhava sugeriu que o giro mesmo era fazermos uma troca de prendas com coisas que tivéssemos em casa e que não usássemos.

não é preciso dizer que as pessoas foram extremamente desagradáveis e circularam uns e-mails nada simpáticos em que alguém dizia que não queria receber lixo.

 

adiante.

dizia eu que o rapaz me deu os ténis. ontem fui experimentá-los no parque, na corrida diária. estava tudo a correr muito bem até sentir que o pé esquerdo me começava a doer acima do calcanhar. passado uns minutos de corrida a dor era excruciante e vim descalça para casa.

uma miséria.

 

há uns anos atrás um amigo meu, esperança olímpica dos jogos seguintes, participou numa maratona qualquer cujo prémio era a qualificação dos três primeiros para ir correr a um país asiático. a meio da corrida o meu amigo perdeu, não sei como, um dos ténis. podia parar, como seria normal. mas o rapaz era teimoso pelo que continuou a correr sei lá mais quantos quilómetros descalço de um pé.

evidentemente que não ganhou a corrida.

no entanto, pelo acto de coragem, que lhe pôs o pé em sangue, foi levado à tal corrida asiática, com tudo pago

 

é certo que meses depois teve uma lesão que lhe acabou com sonhos e esperanças olímpicas levando a que ele se perdesse, durante uns meses, em álcool e depressão. mas o acto de coragem que demonstrou valeu-lhe o facto de que imensa gente do meio nunca se esquecesse dele.

 

lembrei-me só disso ontem, quando voltava para casa com um calcanhar em sangue e um sapato na mão, pés descalços na erva molhada do parque.

se fosse eu, tenho a certeza, teria desistido da maratona, da possibilidade de ir a outro país ou fosse o que fosse.

e ainda diria que tinha a justificação perfeita, pois que ninguém corre só com um dos ténis.

ele correu.

 

creio que essa é a diferença entre os persistentes e os cobardes.

e eu sempre admiti que tenho uma valente dose de cobardia.

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publicado às 16:58



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