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da esquizofrenia

por M.J., em 12.12.14

quando saí estava fartinha até às orelhas das paredes brancas e da janela que ainda aberta se parecia fechar, com garras e trevas de um dia lindo do sol, na minha cabeça.

na rua não havia muita gente. não há afinal tanta gente como julguei que poderia haver. um jardineiro no parque atrás, a senhora da mercearia à porta, mãos nos bolsos, olhar em frente, soturno, carregado. procurei outra pastelaria no desespero das mãos vazias e inúteis nos bolsos e uma mente atroz que não me larga, não me deixa minutos de descanso.

pedi um café.

na mesa do lado dois senhores velhos falavam espanhol, numa pronuncia carregada. fiquei a olhar em frente no vazio da tarde, no vento frio que entrava porta dentro, gélido, cortante.

ao fundo um senhor falava alto. só reparei depois de já ter bebido o café, amargo, queimado. o homem era magro, bem vestido. bebia um copo de vinho. dizia palavras ininterruptas. olhei-o com atenção. também a  mim me apetecia dizer palavras ininterruptas, em alto som, na tentativa infrutífera que alguém me ouvisse, já que ninguém se senta ao meu lado.

- quanto é?

berrou o homem, numa ordem gritada.

os espanhóis riram baixo, na mesa do lado. um deles disse, num português cantado que o homem, se calhar, tinha algum problema.

- se só tem um está bem,

murmurei entre dentes,

- que eu tenho vários.

os espanhóis ouviram, riram-se abertamente, com afabilidade.

- sessenta cêntimos,

berrou a empregada para o homem, que falava sozinho.

- ora essa venha cá,

voltou a gritar ele,

- que isto não é nenhuma peixaria.

os espanhóis riram mais, em gargalhadas abafadas de pigarreio e gordura. olharam-me contentes perguntando-me o que era peixaria. cheguei-me mais para a mesa deles, que o espanhol não é o meu forte e não se ouvia grande coisa com o chinfrim desgraçado do bêbado.

passamos parte da tarde à conversa, na convição deles de que o chavez falava ao maduro em forma de pássaro, a vida na venezuela é boa e recomenda-se e o capitão foi morto por alguém que não percebi, que o cancro foi vencido e era um boneco que estava na urna.

pagaram-me o café.

 

à noite quando quis explicar que tinha conhecido dois venezuelanos na pastelaria a que nunca vou e que um deles era advogado e me chamou de colega, um instinto qualquer mandou-me estar calada.

já muitos casos de esquizofrenia começaram por menos.

só abri a boca quando fui à mala na procura do telemóvel e encontrei o cartão do homem.

isto com malucos há sempre que ter cautelas se não querem ser internados. e eu estou num grau bem qualificado de maluquinhos.

 

imagem daqui

 

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publicado às 14:03