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da festa - o resumo

por M.J., em 28.07.14

fui no sábado à festinha do meu afilhado. que tem menos de dois anos. com outras crianças.

foi lindo.

estava um calor descomunal quando chegamos. uma familiar do meu afilhado também achou. sentou-se num dos bancos corridos da frente, a barafustar do calor, comprimentou-me quando se virou para trás com "ah, desculpe, não a conheci, está mais gorda" e voltando-se em frente presenteou a senhora do lado com "ai que o seu marido parece muito mais novo que a senhora e é mais velho, não é?"

a partir daí pensei que nada pudesse piorar.

piorou.

entrou aos saltos, no palco improvisado, uma senhora de cabelos pretos a fingir cantar uma musica infantil, daquelas que passam no panda, cantadas por meninas com cores garridas, a fazer lembrar a floribela. dançava lá pelo espaço. senti vergonha alheia. muita. uma pessoa adulta que corria pelo palco, metia-se atrás das coisas com sorriso amarelo. uma senhora com mais de quarenta. que fazia trejeitos esquisitos com a boca. credo. pensei que a minha profissão afinal, não é assim tão má, e que preferia transportar lixo que fazer aquelas figuras.

depois a coisa melhorou. os putos (estamos a falar de bebés até aos três anos) entraram, alguns de fraldas. ficaram quietinhos. a representação começou. alguns choraram, outros riram. o meu afilhado ficou parado, sentado a olhar com ar compenetrado de quem não tem dois anos e não percebe um cu do que se passa. mesmo assim estava fofo. muitas fotografias, algumas risadas quando um deles caiu de cu no chão.

confesso que nesta altura já estava a gostar. a sério. os miúdos eram fofos, giros, a festa era deles e era compreensível os papás estalarem de orgulho. soltei até meia lágrima e tudo.

quando a representação acabou pensei que pronto, nem tinha sido assim tão mau. fizeram-se as despedidas, os adeus, as professoras falaram dos meninos que iam passar para o jardim infantil, tudo muito banal. tranquilo.

depois começou o pesadelo.

as mamãs dos finalistas pediram a palavra. quiseram tempo de antena. e aí, meus senhores, pensei desmaiar.

eu não sou mãe. nem de putos, nem de cães (hoje vi num blog uma senhora que tratava o cão como filho, a sério). por isso perdoem-me se exagero quando digo às mães que tenham um pouco de... enfim, contenção. nem toda a gente está entusiasmada para ouvir falar de quanto os vossos filhos aprenderam com a educadora, do quanto evoluíram e de como vão leva-la para sempre no coração. porque não vão, minhas senhoras. um puto de três anos, a não ser que seja o sheldon cooper, não se lembrará da mulher com quem esteve durante o dia algum tempo. provavelmente lembrar-se-á de uns brinquedos coloridos. da educadora, não creio.

acredito que seja agradável para vocês, mamãs, usarem o tempo de antena num palco para enfim, dizerem o quão magnificas são como mães, mas fodasse, façam lá isso com contenção. chamem lá a educadora, dêem-lhe as flores, agradeçam pela paciência, e pronto, vamos todos à nossa vida.

não. aquelas não.

começaram por fazer uma compilação das musicas que, queriam elas, fizessem chorar toda a gente. e depois foi um desfilar. puseram os putos em fila para irem, numa primeira fase dar flores à educadora. um dos putos gritava desalmadamente que não queria estar ali. ao fim de cinco minutos, com as educadoras sentadas no meio do palco com um sorriso inatarrachável os putos lá foram, em fila indiana, com o andré sardet em fundo, entregar as flores. depois, na fase seguinte, ouviu-se sara tavares, e mais uma vez os putos, todos em fila, chateados (um tinha umas trombas maiores que as minhas) foram levar fotografias deles as professoras (fodasse, que farão elas às fotografias que recebem? é que se receberem assim todos os anos podem forrar uma casa com elas e ainda sobram). posteriormente ouviu-se ala dos namorados e novamente os putos a entregar um poema.

nisto tudo passaram-se quarenta minutos.

no fim, quando eu equacionava se seria muito má educação levantar-me, a mulher, a mãe, a heroína que organizara aquilo, sacou do microfone e foi o discurso. o discurso meus senhores. com lágrimas. muitas. elogios, mais lágrimas. mais elogios.

eu não entendo. quem visse pensava que alguém tinha uma doença terminal. juro, e não estou a ser irónica, que quando vi a mãe do meu afilhado a chorar desalmadamente e a dizer-me, quando a cotovelei a perguntar o que se passava, que no fim me dizia, que pensei que a senhora do discurso tinha cancro. incurável. é que fodasse, ninguém podia chorar assim porque o filho ia para o jardim infantil.

fiz um filme. iria a senhora morrer? aquilo seria uma cabeleira em vez de cabelo? a plateia chorava. a educadora chorava. ouvia-se agora o abrunhosa com o camané. senti-me pequenina pelos meus pensamentos pecaminosos. coitadinha da senhora, que ia morrer.

quando aquilo acabou olhei para a mãe do meu afilhado, aflita.

"que foi?" perguntei contrita. "alguém está doente?".

"não" respondeu-me ela aos soluços. "a educadora vai mudar de escola".

oh fodasse, matem-se.

 

mas o pessoal fica parvinho quando o assunto são criancinhas?
 

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publicado às 11:53



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