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da morte

por M.J., em 10.04.14

se não fosse a dieta estava capaz de beber uma garrafa de vinho. agora. aqui sentada. talvez fosse até à varanda e ficasse um pouco a olhar em frente. eu e o meu vinho.

não bebo ainda assim, que o objectivo está cá e é para cumprir.

eu cumpro os meus objectivos, mesmo aqueles que nunca pensei conseguir. sou uma pessoa estranha. desisto nas curvas, corto caminho no mais fácil, mas normalmente cumpro o difícil. cumpro o que decido.

quando decidi morrer de dor, quase, quase consegui. fui eu que decidi morrer, não há sequer porque o negar. fui eu que decidi ficar semanas ininterruptas a dormir duas horas por noite e depois, quando não conseguia e o sono me inundava, o despertador tocava de meia em meia hora, que os objectivos são para se cumprir. assim, uma noite inteira. dormia meia hora e o despertador... titititit... e eu acordava e chorava mais um pouco, até voltar a dormir.

mas isto foi antes quando ainda controlava o que era, mais ou menos, controlava, e conseguia sair e caminhar e ir trabalhar, e sorrir e enganar meio mundo. vestia um vestido, calçava uns saltos, punha a cara alegre e ia tudo na onda sem saber dos mil cortes nos braços, nas pernas, na barriga. era eu que decidia isso, o sangue a correr, a libertação de uma dor que eu causava a mim mesma e que acalmava outra dor.

fui eu que decidi cair nas garras de uma insegurança causada por um relacionamento de duas semanas. fui eu que deixei que o medo do abandono, a incerteza, o ódio que nutria por mim mesma me invadisse e deixasse comandar tudo o que era. fui eu que deixei de comer. de dormir. de ter uma rotina. de querer pensar racionalmente.

fui eu que na fase seguinte coloquei tudo o que era noutra pessoa. que deixei de conseguir ser eu, ter vontades ou desejos e me calquei, diariamenete, nos minutos, nas horas, nos dias, em função de alguém. que me inferiorizei, de propósito. fui eu.

mais ninguém.

e quando decidi que era impossível prosseguir fosse o que fosse, que respirar doía mais que uma alma em cancro, a solução era morrer. morrer, porque não? os cortes na pele eram supérfluos, os comprimidos que tomava aos punhados, assim, sem contar, habituavam o corpo à dormência. fiquei completamente transtornada quimicamente.

é possível, sabem? deixar de ter qualquer controlo sobre as emoções num cérebro doentio, que nos comanda mesmo sem deixarmos, que nos obriga a não ver nada se não dor, tanta dor, se não trevas e escuro e sensação que nada vale a pena. nada. um nevoeiro atroz que cega os olhos, cega a alma, cega o coração.

afastei-me de toda a gente. daqueles que me estendiam a mão. daqueles que me obrigavam a que eu lhes desse a mão. queimei anos de amizades, joguei no lixo, na certeza que a vida doía tanto, mas tanto, mas tanto que era impossível respirar.

tentei o suicidio sim. com comprimidos e alcool na dormencia de que aquilo ia parar. a dor no peito, no cerebro, na alma, a cegueira, o nevoeiro, as trevas, a angustia, a ansiedade, o desespero.

e depois ele fugiu. melhor. ele saiu. assim, chegou-se ao pé de mim e foi. sem dar importância à minha dor. numa cobardia fenomenal, num acto puro a demonstrar o desprezo que sentia por mim.

e foi a minha salvação.

não lembro grande coisa dos dias seguintes. é possível ser-se uma caixa vazia de nada. eu fui. é possivel não sentir absolutamente nada. está cientificamente provado. o cerebro faz isso quando percebe que não aguenta mais. desliga. eu desliguei. uma ou duas semanas, não sei. depois a dor voltou. mais calma, ainda dolorida. demasiado dolorida para uma pessoa só.

decidi voltar a viver, depois de dias na cama, semanas longas de dor e inferno, de choro ininterrupto, ainda que o sol brilhasse na rua, no domingo em que deitada na cama o papá entrou, lavado em lágrimas e disse, assim, "tu eras o meu orgulho e agora não tenho nada".

principiei a viver nesse dia, quando ele, aquele que nunca dissera que eu era o orgulho fosse do que fosse, me disse isso.

principiei nesse dia. decidi viver.

aqui vivo.

tem dias que me apetece desistir outra vez. embarcar num comboio sem retorno, com todas as coisas que me permitiriam chegar à loucura. tem dias que a dor está esquecida e me apetece desistir.

depois de repente, assola-me um bocadinho dela, só um bocado, pequeno, por minutos, e percebo o porquê de ter morrido, tantas vezes naquela altura. de ter suportado mais de dor do que é humanamente possível.

não quero voltar.

desta vez, a ter de ser, quero morrer mais rápido. e uma vez só.

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publicado às 22:58