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da orquídea

por M.J., em 03.02.15

o vento partiu uma das orquídeas que tenho na varanda. quando cheguei, esta tarde a casa, rua deserta de vida, árvores nuas, um vento agreste a cortar-me a cara, lamber-me sem pudor as mãos, nuvens negras cravadas no céu, vi a orquídea amarela, ainda aberta, caída no chão, mesmo à entrada da porta.

sozinha.

num gesto de caridade nenhum dos vizinhos a calcou. ficou ali, quieta, ferida, partida, as pétalas muito juntas, ainda viçosas, quase desmaiada na calçada. 

ao fundo um rugido de vento.

não cheguei sequer a entrar em casa. dói-me o corpo, a alma, as mãos, os olhos. peguei na mala e fui à pastelaria do bairro. cheirava a bolos e pão fresco. uma multidão de gente apertava-se numa falsa sensação de acolhimento ao redor das mesas. as minhas vizinhas estavam todas unidas num dos cantos. uma delas lia alto uma revista. a outra, gorducha, bolachuda, a que leva com as minhas risadas a meio da noite, os meus prantos em alturas de dor, olhou-me com reprovação.

tive vontade de chorar pela minha orquídea morta que eu nem sequer levantei.

pedi um chá. outro. às vezes, nesta sensação de dormência, tenho a certeza que toda eu sou feita de chá, quente, que já não é reconfortante porque banal nos dias. a empregada de cabelo comprido, que usa entrançado até ao rabo, com gestos muitos suaves, ar delicado, tocou-me no braço: um óptimo dia para beber chá, murmurou.

nunca achei que houvessem dias melhores que outros para beber chá.

ao meu redor uma algazarra de gente, numa agitação desocupada. o meu chá tinha um fumo que esvoaçava em direcção à janela de onde se vêem os carros em fuga da vida.

quando paguei e voltei a casa, mais vento e nuvens e árvores e ausência de vida num bairro cravejado dela e, ainda assim, morto a orquídea tinha desaparecido.

possivelmente estará no lixo.

roubei o meu próprio correio, que há muito que perdi a chave, pelo lado de fora. em casa está escuro e frio e não há chá, ainda. podia ter posto a minha orquídea numa jarra, em cima da mesa para dar cor a este dia, tão vazio, tão igual, tão desperdiçado. 

lá fora entram-me árvores nuas pela porta envidraçada da varanda. de onde a minha orquídea caiu. 

de onde eu posso cair. 

 

 

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publicado às 17:36


7 comentários

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De Gaffe a 03.02.2015 às 19:46

Não cais, até porque detesto orquídeas.
;)
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De M.J. a 04.02.2015 às 15:49

há algumas particularmente bonitas.
nada que se compare a girassóis. mas bonitas ainda assim.
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De (des)Esperança a 04.02.2015 às 09:36

se caires só ganhas uma perna partida... viva o chá!
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De M.J. a 04.02.2015 às 15:50

ora essa! sabes lá tu o tamanho da minha varanda!
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De Pseudo a 04.02.2015 às 15:56

Se caires, levamos-te orquideas e girassóis. :) Se não caires, que é o que efectivamente vai acontecer, levamos-te girassóis e orquideas.
Que tal?
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De M.J. a 04.02.2015 às 16:48

és um doce. girassóis e orquídeas. mais girassóis que orquídeas!
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De Pseudo a 04.02.2015 às 17:16

hahahahahah....OMFG!!...LOL...sou um doce!! Vou morrer a rir! AHAHAHAHjajajajajaj

Sua marota! :)

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