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e você, que tem com isso?

por M.J., em 21.01.15

ou era uma vez uma história triste.

 

fui na hora de almoço, num instantinho, ver a mãe do moço ao hospital.

depois de estacionar o carro, debaixo de um manto de chuva, vi uma senhora, já velhinha, cair redonda no chão, ainda que amparada por outra, muito magra, quase tísica. foi uma queda feia, de braços e pernas nuas numa saia preta, a raspar no chão.

aproximei-me, preocupada:

a tísica puxava-a já, sem qualquer cuidado, por um braço.

 

quando cheguei perto delas a velhinha já estava de pé, novamente a tentar caminhar, ainda que toda curvada, periclitante, a gemer.

para meu espanto, a puta da tisica, cabelo colado à cabeça, feia que nem mil escaravelhos, puxava-a por um braço, numa rapidez impossível de acompanhar por pernas velhas, cansadas, sem coordenação.

 

outra senhora aproximou-se também, indignada, com as palavras na boca que me emudeceram.

creio que murmurou, em voz ríspida, que a senhora não conseguia caminhar e que não valia a pena puxá-la. 

a tísica resmungou qualquer coisa, que bem sabia que a outra não podia caminhar mas tinha que ir à consulta dos olhos:

- ande, dizia ela, quase em berros, caminhe.

 

a senhora que se aproximara voltou a insistir, numa amabilidade que eu não tinha, prontificando-se a levar a velhinha à porta do hospital, com o carro, que não a puxasse, que a estava a magoar. 

- não é preciso - a tísica, quase aos gritos. e depois virando-se para a velha - caminhe ou quê?

 

naquele momento vi-me a mim mesma, daqui a uns anos, velha, resmungona, rezingona, gorda e com osteoporose, a ser puxada para uma consulta das cataratas por uma fulana qualquer, que quer é despachar aquilo para ir fumar o cigarrinho na esquina.

acabei por exclamar, em nervos:

- mas de que vale mandar caminhar se a senhora não consegue? 

- e você, quem tem com isso? 

a tísica, ar de má, a querer apanhar um bofardo nas trombas, voz de desafio: eu é que sei.

 

estaquei. 

com um safanão, eu que nem gosto de violência nem de conflitos, podia abaná-la até lhe cair a cabeleira.

ainda assim, não fiz nada, na cobardia que me consome.

às vezes sou quase eu a tísica, mesmo que gorda, na minha incapacidade de agir.

 

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publicado às 17:11