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da vista

por M.J., em 24.01.15

da janela do hospital tem-se uma vista privilegiada sobre o parque. esteve em obras, ainda há espaços fechados, mas o lago está acessivel, colado a uma relva fresca. não cortaram as árvores e os bancos de pedra permanecem ali, num orgulho de tempo que se estagnou.

do hospital vê-se o sol a bater a jorros nas árvores ao fundo. há três camas no quarto. cheira a desinfectante, forte, que se entranha na roupa, ainda que me tenha cravejado de perfume, adocicado, na tentativa de escape.

envolvo a pashmina com mais força ao pescoço. está silencioso, num mutismo de sesta das três da tarde, espalhado nas doentes, ali acamadas, olhos perdidos no tecto.

numa das mesas de apoio, a servir de cabeceira, está uma fralda, mal fechada. murmuro baixinho, na desolação, no mutismo, no silêncio, no sol ao longe, que temos uma vista bonita sobre o parque. há pássaros em voos no céu, gente que corre junto ao lago, pais segurando filhos pelas mãos, cheiro fresco das das árvores, da terra, da água com os patos.

ninguém me responde. a enfermeira entra, em bicos de pés, cortando o rasto de cheiro de desinfectante que escorre pelo ar. não olha ninguém, pega na fralda, lentamente, afasta-se em passos de bailarina, levando a brisa de agitação que entrara porta dentro. o cheiro permanece, entra dentro de mim.

ela olha-me, modela as palavras, baixinho "aquela senhora está aqui à três meses" diz. percorro com o olhar o espaço que me indica. a mulher junto à entrada, com rugas de mil anos, permanece a olhar o tecto, numa fixação obsessiva. "e segundo dizem, não teve uma única visita".

encolho-me dentro do casaco, na procura do cheiro familiar do perfume oferecido em dias de festa. tento não encolher os ombros, na aceitação dos factos, suster a respiração no enjoo do cheiro.

ao fundo, pela janela que nenhuma delas enxerga, camas alinhadas, encostadas à parede, vê-se o parque, repleto de luzes.

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publicado às 19:08



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