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das cicatrizes

por M.J., em 14.04.15

consigo sentir o cheiro da relva fresca acabada de cortar.

o corpo inundava-me de dor na procura da pessoa que habitava em mim e eu não sabia quem era.

a manhã acordava devagar estendendo pequenos raios de sol e transformando em lágrimas de cristal as minúsculas gotas de nevoeiro, pousadas na erva fresca dos canteiros.

 

sei que havia um baloiço num ramo de uma árvore.

sei que haviam patos no lago, numa calmaria de dias longos. sei que estava sentada ao canto e que esperava por mim, ainda que não soubesse onde encontrar-me.

 

consigo sentir o frio que me queimava os braços nus.

alinhadas de sangue, em finas linhas, no orgulho de ser mais do que eu, as cicatrizes abertas, expostas à manhã fresca que chegava, matavam o dia, o que eu era e não queria ser.

pensei morrer naquela manhã, sentada ao lado do baloiço na árvore velha, com um cheiro intenso a erva cortada.

 

não morri afinal.

nunca morro nos momentos torpes de dor.

e sei - com certeza - que me resta a tristeza dos desafortunados:

acabar por morrer quando finalmente se instalou a esperança da utilidade da vida, em cicatrizes fechadas do tempo.

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publicado às 10:11



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