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das grutas

por M.J., em 22.06.15

fui então ver as grutas.

o homem não se calava com isso e depois do hotel que me presenteou, com uma suite fantástica, varanda sobre uma infinidade de paisagens maravilhosas e uma cama descomunalmente gigante, não podia recusar.

fui.

minha nossa senhora dolorosa, não façais o mesmo que eu, a sério.

primeiro porque estava um calor horroroso. não culpa das grutas, evidentemente, mas chegámos a transpirar por todo o lado, incluindo roupa interior e cabelo. muito lindo. depois porque comprámos os bilhetes no meio de uma algaraviada de espanhóis, que falavam mais alto que uma creche em birra.

cum mil grilos!

após comprarmos os bilhetes um senhor com ar incrivelmente triste pediu-nos para esperar vinte minutos porque a espanholada ia entrar primeiro, divididos em dois grupos. como é evidente!!! não bastava uma pessoa estar em pânico com a ideia de se ir enfiar nas entranhas de uma pedra gigante, ainda tinha de esperar por isso, calmamente, como se fosse ver a novela das duas.

praguejei muito.

meia hora depois mandaram-nos para uma sala ver um filme (um vídeo pequenito) acerca das grutas e da descoberta das ditas. a sala era bafienta e sentamo-nos ao molho, ainda com quatro espanhóis num canto a reclamar porque não percebiam nadinha do que ali se dizia.

soube naquele momento que estava perto do inferno.

mais dez minutos e fomos encaminhados para a descida. nessa altura as minhas pernas começaram a tremer e comecei a pôr em causa a relação e todo o circunstancialismo que me trouxera até ali. também larguei duas pinguinhas e pensei que não ia conseguir respirar.

ninguém me deu grande importância.

descemos.

o guia era um adolescente imberbe, que falava muito mal em palavras comidas e repetia uma ladainha aprendida. para piorar, ainda mal nos cumprimentara e já avisava para não entrarmos em pânico caso as luzes se apagassem (eu estava certa, mas com certezinha absoluta, que aquelas seriam as minhas últimas horas), que era um procedimento de rotina e para lhe perguntarmos alguma dúvida.

queria perguntar, em gritos, quando é que aquilo acabava.

adiante. logo depois dos primeiros degraus foi-nos apresentada a "janela" por onde entrou o primeiro maluco na descoberta da tortura e desejei abancar ali. depois, numa estranha análise comecei a observar com atenção os meus colegas de jornada: uma família com três crianças em que a senhora calçava sandálias de salto; um senhor de meia idade com a mãe idosa que mancava; os quatros espanhóis; uma família com dois miúdos alemães e um grupo de pessoas com um bebé de colo. sem saber bem como dei comigo a constatar que, caso fosse necessário uma medida de salvamento qualquer, eu seria das primeiras, porque portuguesa, na flor da idade, a contribuir em massa para a máquina contributiva do estado e sem dar despesas de maior como as criancinhas ou os idosos.

acalmei.

sol de pouca dura.

a porta fechou-se num estrondo de finitude e quase em prantos internos lembrei-me que não levava nenhum casaco (estavam uns quarentas graus lá fora), nenhum mantimento ou água e que, contrariamente aos mineiros do chile, eu ia partilhar aquele espaço com tanta gente durante quarenta dias, sem sequer ter uma latinha de atum para dividir por todos ou uma mantinha para aquecer o peito.

jesus cristo, nem esse sofreu tamanha tortura!

continuámos.

fomos descendo aquilo que me pareciam infinitos degraus com os meus resmungos que se confundiam com ladainhas sibilantes. o senhor com a mãe idosa ria-se entre dentes quando me ouvia, porque era quem me antecedia, e estabeleceu com o rapaz uma conversação repleta de pilhérias acerca de como aquilo era seguro e eu tinha mais probabilidades de morrer de medo do que morrer esmagada/fechada/sem ar. não ajudou. a idosa segurou-me mesmo pela mão, mais a meio, quando as putas das luzes se apagaram e aconselhou-me a rezar, que acalmava.

tive vontade de mandar aquilo tudo à merda e desatar a correr para trás mas contive-me no medo de me perder.

o guia era um bosta gritante. limitava-se a perguntar aos miúdos o que lhes pareciam as estalactites: aquela parece uma velha, aquela um polvo, a outra um elefante. e aquela? às tantas, depois de apanhar com tanta água na cabeça, descer tantos degraus e estar já conformada com uma morte lenta, enterrada viva, acabei por responder, mais alto do que queria "uma vulva, senhor guia, aquela parece uma vulva".

o rapaz olhou-me como se me fosse atirar a uma das estalagmites. controlei-me.

enfim, acabei por me alhear do medo e perto do fim já bufava não por saber a minha morte mas porque farta, que nem dois perus, de ter frio, de ver sempre a mesma merda e de ouvir o adolescente imberbe a dar asas à imaginação acerca dos pedregulhos.

acho que ultrapassei a clasutrofobia e, como cereja no topo do bolo, ganhei todo um novo respeito por crianças porque uma das miúdas, tão farta como eu, foi o resto do tempo a gritar, em alto e bom som, que queria ir embora, que as grutas eram feias e que não queria estar ali.

posso jurar que tive vontade de lhe dar dois beijos, uma fralda e convidá-la para partilharmos, à superfície, dois biberões de leite morno.

 

ah! e quando aquela porcaria toda acabou e subimos de elevador (mais dois ou três minutos fechada, dentro de uma caixa, de olhos bem cerrados) constatei que afinal o calor estava mais mais abrasador e a minha garganta não gostava de mudanças de temperatura súbitas.

agora estou com a dita inflamada.

sinceramente.

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publicado às 11:15


16 comentários

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De Me, myself and I a 22.06.2015 às 11:42

Acho que a tua descrição dava um belo guião para um filme! lol Nem conseguis-te aproveitar a beleza das grutas! As melhoras!
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De M.J. a 22.06.2015 às 12:51

aquilo de belo não tem nada...
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De Maria Araújo a 22.06.2015 às 13:03

Olááááá.
Uma estória muito bem contada e só de a ler senti-me sufocar.
Em adolescente, fui com a minha avó às de Mira de Aire, jovem que era achei piada.
Uns anos mais tarde, fui a umas grutas em Palma de Maiorca e aí, sim, senti-me sufocar, não aguentei, estava farta, até que, quando saímos prometi que nunca mas entrava nas grutas.
Há dois anos, fui às Grutas da Moeda, em Fátima, não queria entrar, mas uma amiga garantiu-me que eram pequenas , "arejáveis" e fui.
De facto, a visita não passa dos 15 minutos, é uma gruta pequena e bonita.
Mas acho que fiquei por aqui.


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De M.J. a 22.06.2015 às 14:50

foi exactamente às de mira de aire que fui :)

e nunca mais irei a outras.
não entendo a beleza da coisa.
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De Vanessa a 22.06.2015 às 14:29

Grutas de Mira D'aire. Eu já lá fui 3 vezes, devo confessar que a última detestei. Fui em Fevereiro do ano passado, aquilo pingava água por todo o lado e estava super abafado. Antes não existia o filme de 10min, coisa que tivemos de estar a papar ali em seco. Depois começou a festa: fomos só os dois e o guia e aquilo para o moço ir a uma gruta é quase o mesmo que ir andar naqueles carrinhos do noddy que papam 1€ e balançam, até porque para um mineiro a sério, a gruta é básica! Bom, ar abafado e a minha tensão baixa não funcionam bem, mas correu às mil maravilhas, até porque o guia era um homem dos seus 50 e tal anos com a mania que era esperto. Falava com o meu moço como se ele fosse um autêntico burro e ele deu-lhe lá com cada resposta que o homem teve de engolir o que dizia. A sério, que guia da treta, com piadas secas, com teorias parvas que nem ele conseguia responder.

E isso das piadas sobre as formas das estalactites, apanhei uma fartação! Isso deve ser uma espécie de roteiro que eles têm de decorar, que é estupidamente absurdo! "gosta da sua sogra? sabe do que é que elas gostas?" e aponta-me para a direita onde tá uma coisa que parece um pila. Oh por favor!

Compreendo bem a tua mágoa
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De M.J. a 22.06.2015 às 14:48

é triste. é pessimamente mal organizado. era preferível não fazerem guia nenhum. deixavam as pessoas ir, punham aquilo sinalizado e podia haver informação nos pontos mais relevantes. assim é só parvo.
ou faziam com um guia a sério ou estavam quietos.
sim, o consolo das viúvas e a história da sogra e do poço. cum mil raios, que seca!

desta vez não estava abafado. mas senti imenso frio.
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De Vanessa a 22.06.2015 às 14:57

Aquilo passa a fresco no verão e quente no inverno. Pelo menos isso foi algo de interessante que o nosso guia explicou. Mas epa, não se suporta aquelas piadas, o meu moço ria-se mais por ele o achar burro, do que das piadas.
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De M.J. a 22.06.2015 às 15:00

muito, muito mau!
nunca mais lá ponho as patas. nem lá nem em outra gruta qualquer.
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De Magda L Pais a 22.06.2015 às 15:24

apesar de sofrer de claustrofia, já visitei umas duas ou três grutas. Adorei umas em espanha que são lindissimas e cujo guia sabia explicar o que estavamos a ver, sem recurso a piadas estúpidas.
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De M.J. a 22.06.2015 às 15:27

não. a mim ninguém mais me apanha. que drama!
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De redonda a 22.06.2015 às 16:28

:)))) Esta descrição está o máximo!´
Há alguns anos fui ver as grutas, mas tive sorte ou então as grutas mudaram porque quando lá fui só não gostei assim muito da parte do elevador :)
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De M.J. a 23.06.2015 às 15:31

gostaste de apanhar com pingas de água nas trombas e de estar quarenta e cinco minutos fechada nas entranhas de uma pedra?
o rapaz também diz que sim mas eu juro, por mais que tente, que não entendo.
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De redonda a 25.06.2015 às 01:19

:) ...não me lembro de ter apanhado com as pingas de água...talvez esteja em negação e não tenha superado ainda a terrível experiência...:)
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De M.J. a 25.06.2015 às 15:32

sortuda!
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De Cris a 22.06.2015 às 22:16

que sketch cómico daria esta tua aventura!
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De M.J. a 23.06.2015 às 15:31

um dia, ah um dia vou escrever dessas coisas!

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