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das pessoas

por M.J., em 15.04.15

tenho-me arrastado numa preguiça dolente de depressão. apetece-me dormir, somente. se não estou a deprimir com ar de songa monga estou a implicar, voz aguda, acutilante, com grandes sentenças do certo e do errado, sorrindo complacente por achar que consigo derrotar qualquer argumentação. 

uma traste, assim, com todas as letras, é o que sou.

 

às vezes dou-me ao luxo de não pensar.

de deixar-me ir nessa merda da corrente, sem levantar ondas ou pranchas de surf. quase sempre acabo pior do que quando comecei. revolta-se-me o estômago numa merda muito mal cheirosa de vidas que vejo e desprezo.

não que a minha seja melhor, sempre o digo, ninguém acredita.

 

tive uma discussão absurda com um amigo, numa tarde dos últimos dias.

estava particularmente mal humorada e ele tentava fazer-me ver que uma das soluções para as pessoas se sentirem melhores era conviver com outras pessoas. quando demos conta entrámos numa enxovalhar de opiniões e ficámos os dois, com olhos brilhantes de raiva, a olhar um para o outro com vontade de nos esganarmos.

a minha opinião contradizia a dele com força de gigante.

ele dizia que já tinha passado por este tédio de pessoas e que a solução para se sentir melhor fora chafurdar-se delas. pois que sai todas as noites, convive, conhece gente, acredito que partilhe o leito com umas quantas.

eu dizia que tinha passado essa fase há uns anos mas que agora não tinha paciência. com o amadurecimento deixamos de conseguir rir só porque sim, falar só merda para parecer bem ou ter um trabalhão incrível para vestirmos as putas da tendências da moda e não parecermos idiotas numa saída à noite. depois, avançava eu, é um desperdício de dinheiro.

- quanto gastas tu numa saída média, dessas que fazes três a quatro vezes por semana?

- agora ou quando era mais inconsequente?

- agora caralho! - respondi-lhe com vigor, quase dando um punhado na mesa da pastelaria - pois não estamos a falar do agora?

- tenho-me contido, em bebidas gasto cerca de dez euros, o menos possível.

- o menos possível? - olhei-o com escárnio - quer dizer que uma pessoa adulta, saudável, com responsabilidades de vida, gasta só em bebidas, uma média semanal de quarenta euros?

- e não é muito, respondeu-me ele!

- mas não podes sair e beber só uma cerveja? não sais para conviver? para que caralho há-de ser preciso mais que uma cerveja se a tónica da saída está nas pessoas?

 

a partir daqui a conversa descambou.

ele olhou-me como se eu fosse uma anormal, eu olhei-o como se ele fosse um irresponsável mimado. calámo-nos ambos num desprezo visível pelas opções idiotas de cada um.

eu fiquei com mais asco de pessoas, ele com mais vontade de sair nessa noite e gastar não dez mas quarenta euros, só para me contradizer.

falámos depois disso acerca de uma cadeira. dessas de secretárias. não tocámos na palavra pessoas, dinheiro ou saídas. e acabámos a tomar café, contentes da vida por sermos afinal amigos.

sinceramente.

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publicado às 13:08


2 comentários

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De Cris a 16.04.2015 às 11:46

Para estar com pessoas é preciso sair à noite?
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De M.J. a 16.04.2015 às 14:41

em alguns casos parece que sim.

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