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decisões

por M.J., em 04.07.18

o maior stress de viver no mundo adulto é, para mim, a necessidade de assumir responsabilidades, decisões e etecetera e tal que são determinantes e farão parte de nós o resto da vida.

não é que as pequenas decisões diárias sejam pouco importantes.

toda a gente sabe que optar por ir à rua cinco minutos antes ou cinco minutos depois poderá ser a diferença entre morrer atropelado ou ficar cá por mais um tempo. no entanto, as grandes decisões, aquelas que precisamos mesmo de dormir sobre o assunto para conseguir chegar à resposta correta (e nunca há um certo ou errado, uma cruz ou visto, a caneta vermelha ou verde numa folha branca) são capazes de nos provocar úlceras e vontade de voltar a um tempo onde a maior dificuldade era aprender quanto é dois mais dois.

 

depois da notícia da gravidez (e já indo ao encontro de uma decisão que havia tomado no final do ano passado) começamos na procura de casa para comprar.

durante parte da minha adolescência e juventude jurei a pés juntos e com uma mão sobre o coração que nunca, jamais, para sempre nunca iria comprar casa. e sabia um por um todos os argumentos muito batidinhos, alinhados para a decisão. parecia-me de um provincianismo e pequenez muito grande endividar-me a vida toda, ficando presa às mesmas paredes para todo o sempre, em função de um imóvel.

depois, como em tudo, fui aos poucos - pouquinhos - mudando de ideias.

faz parte.

quem eu sou não é quem eu era e, muito provavelmente, quem serei.

na verdade,  todos os dias duvido mais daquelas convicções que me parecem muito convictas uma vez que, por um motivo ou outro, são aquelas que a vida - e eu - vamos apagando ficando depois, ambas as duas, de boca aberta, escancarada, com os dentes todos de fora, a rir do disse, pensei ou jurei. 

 

começamos portanto à procura de casa.

escolhemos o sítio (e não é coimbra, esta nunca foi a minha cidade-casa), fizemos uma pesquisa exaustiva online e percebemos que, de repente, as casas são todas feitas a barras de diamante. 

o imobiliário, vá-se lá saber, é novamente a galinha dos ovos de ouro.

casas que até há bem pouco tempo eram vendidas com muito custo, quase um favor feito, são agora oferecidas como pequenos palácios, ainda que precisem de mais obras que os anexos dos papás lá na terra e tenham mais surro que a toca dos leões no zoo. 

incrível. 

e por isso, depois de vasculhar tudo o que era aplicação online e termos noção dos preços praticados, procuramos ajuda de uma imobiliária.

e oh senhores, se o homem soube vender.

 

num sábado de manhã cinzentão, os meus enjoos controlados, foram-nos apresentadas duas moradias (parece que é o nome correto) que poderiam  ir de encontro ao que procuramos (menos no preço).

a primeira, nos arredores da cidade, tinha três cães mal cheirosos no pátio, ervas no jardim que faziam dele a selva amazónica e musgo num lago que, de certeza, em tempo teve peixes (e deviam estar lá todos mortos dado o cheiro que dali emanava). além disso estava a habitada pela proprietária que, mesmo sabendo da visita, se encontrava alegremente a tomar o pequeno almoço na cozinha, com um robe florido e cabelo muito sujo.

pois bem, pensamos, se tanto dinheiro só consegue comprar isto desistimos já, esperamos que a bolha rebente e compramos daqui a uns anos, já velhos e sem paciência, mas não roubados. 

a segunda casa o oposto.

depois do horror da primeira (as teias de aranha nas janelas, os cães com pelo colado a cheirar mal, os quartos do tamanho de pequenas casotas) foi-nos apresentada a outra opção. mais cara mas nova, numa zona de moradias novas, acabamentos que sim senhor, um quarto do tamanho de meio apartamento onde vivemos hoje, arquitetura moderna, espaço de sobra cá fora e exposição solar que nunca mais acabava).

o contraste era tão grande que não havia outra opção que não nos apaixonarmos.

reservamo-la antes de tomar uma decisão.

e foi isso que me fez comichão no cérebro durante três semanas.

 

aqui estou eu, aos trinta e um anos, prenhe, envolvida num projeto profissional que deu provas de conseguir ser um sucesso mas que depende totalmente do meu trabalho - a trabalhar com náuseas é cá um encanto... - sem ter viajado um terço do que queria viajar, sem ter vivido um quinto da adrenalina que queria ter vivido, a pensar num crédito para a vida toda (e é bom que seja amor para vida toda também) para viver numa moradia às portas da cidade.

a típica vida que jurei faz tanto tempo não querer.

e imagino-me já de avental e vestido branco, muito vaporoso, a fazer um bolo nas tardes de domingo, com o sol a entrar a jorro e o arlindo (vai mudando de nome consoante o dia) a brincar no jardim com um ladrador, ambos vestidos com uma t-shirt a combinar.

é então isto que quero aos trinta e um anos.

é esta pacatez que desprezei, esta noção de vida nos eixos, mesmo que haja uma parte de mim a lembrar-me que poderia muito bem viver neste apartamento pequeno, ouvindo os gemidos das meninas dos vizinhos em altas horas da noite (ele deve pagar, não encontro outra alternativa para tamanho espetáculo) ou as discussões da família do lado quando a adolescente lá de casa quer sair à noite; ou o puto de baixo que joga futebol contra as paredes da sala e entoa pelo prédio. poderia usar a brutalidade de dinheiro que vamos dar de entrada e que poupamos com tanto afinco para uma fabulosa viagem de um mês e ainda sobrar bastante para comer em restaurantes premiados vestida com roupa de lojas onde me recuso a entrar.

 

podia e não vou fazer.

vou escolher a outra alternativa mesmo que cheiinha de medo, a transbordar de receio do amanhã.

 

olho a minha barriga que cresce aos poucos:

arlindo, arlindo... não nasceste ainda e olha as decisões que já quis tomar por nós. 

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publicado às 14:49


8 comentários

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De Silent Man a 04.07.2018 às 15:39

Olá Éme Jóta,
Antes de mais, espero que corra tudo bem. Não só com o Arlindo (até podia ser Arfeio, mas preferes Arlindo...), como também com a nova habitação.
Depois, gostava que soubesses que também eu estou a passar pelas mesmas privações. Estou neste momento, comprador de uma moradia (é mais um monte inteiro, mas pronto) a cerca de 30km de Lisboa. Apaixonei-me pela casa no momento em que vi as fotos no anúncio, comecei a convencer esposa amada no momento em que entrámos portões adentro para a visita. E o filho fez o resto do trabalho com o seu entusiasmo pelo espaço.
Para além disso, vou mudar de emprego em Agosto, após oito anos de dar porcos inteiros à emnpresa e receber um chouriço ao fim do mês.
Portanto, acredita que é com medo, muito medo, que estou neste momento. Porque tudo pode correr mal. O novo emprego pode correr mal e ficar sem dinheiro para pagar o empréstimo. Podemos chatear-nos e a casa em nome dos dois e o empréstimo em nome dos dois e é um problema.
Chama-se a isso crescer. Aquilo que no tempo dos nossos pais era tão mais fácil (comprar casa sem ajudas de bancos) agora é virtualmente impossível. O dinheiro está pelas horas da morte e os bancos aproveitam-se disso. E os imóveis que antigamente custavam tutimeia agora custam três rins e uma proposta indecente à lá Demi Moore.
Mas também tudo pode correr bem. Posso ser extremamente feliz naquela casa, posso fazer do meu filho uma criança ainda mais feliz, este novo emprego pode ser exactamente aquilo que eu precisava e vir a transformar-me num tipo muito bem pago para o trabalho que executo.
Estou disposto a correr o risco!
Aparentemente tu também!
E por isso, também te dou os parabéns :)
Beijocas

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