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demasiado

por M.J., em 20.03.17

nunca esperei estar no ponto em que me encontro neste momento. 

é verdade e talvez tenha sido motivado pelas peculiaridades da minha infância, da minha personalidade, do que fui entranhando ao longo dos anos, das recusas de adolescência, de me sentir constantemente desconfortável com o meu corpo, de achar que ninguém poderia sentir desejo pelo que eu era, demasiado gorda, demasiado mau feitio, demasiado feia, demasiado bruta, demasiado serrana, demasiado pequenita, demasiado deprimida. 

 

o demasiado na minha vida, incluindo uma demasiada baixa auto-estima, fizeram-me crer - sobretudo na adolescência e numa pequena parte da juventude - que eu seria tudo menos o que sou. fizeram-me acreditar que permaneceria solteira, virgem, azeda e seca de sentimentos até ao fim dos meus dias, terminando num lar como a "menina maria", gorducha e manca (uma vez que não haveriam joelhos a aguentar tanta gordura), mandando bengaladas nos companheiros de quarto.

eu seria isso e por ser isso nunca acreditei ser mais. 

eu seria isso - um cérebro emocionalmente doente aliado a uma inteligência baça e marrona - e isso chegar-me-ia. 

 

e afinal não. 

sou muitíssimo mais do que poderia imaginar.

 

entendi principalmente o valor das pequenas coisas, mesmo que pareçam insignificantes na sua pequenez.

entendi que as minhas banalidades vão deixando de ser só dias cinzentos, flores secas, mantas nas pernas e livros que acabam. que se vão transformando em chás quentes, rotinas domésticas e mãos dadas. e que se vão transformando na suavidade da roupa na corda, no cheiro das flores nas jarras ao domingo, no crescer de um bolo no forno, na cor viva dos tapetes da entrada, na colecção de globos de neve na sala, nas almofadas garridas no sofá, nos livros alinhados nas prateleiras.

na sensação absoluta de pertença a um lugar e a alguém onde sou eu e o posso demonstrar.

na sensação absoluta de pertença a um lugar e a alguém onde a intimidade, a partilha e a entrega anulam o demasiado em mim:

não sou demasiado gorda, mau feitio, feia, bruta, serrana, pequenita ou deprimida.

e é essa aprendizagem que me vai tornando todos os dias mais completa, gigante de conhecimento e emoção.

 

não sabemos nada aos vinte, sabemos tão pouco aos trinta e não imagino o que saibamos aos quarenta.

e o mais triste é que, quando finalmente soubermos algo, já não vamos ter tempo para viver o que finalmente sabemos.

 

e é uma pena demasiada. 

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oh vai ver ali:

publicado às 11:30


12 comentários

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De Me, myself and I a 20.03.2017 às 11:48

É tão demasiado bonito!
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De M.J. a 20.03.2017 às 14:31

é dos teus olhos.

(fico muito feliz pelas boas noticias. ah, e outra coisa: não é a tua percepção sobre o teu corpo que está errada. é a tua percepção de que o teu corpo é quem és ;) )
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De Ana a 20.03.2017 às 12:24

Tão bom de ler estas reflexões.
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De M.J. a 20.03.2017 às 14:31

são ótimas de escrever. (creio até que são o que dá mais sentido a este blog).
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De Cristina a 20.03.2017 às 15:05

bonito.
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De M.J. a 22.03.2017 às 10:16

obrigada.
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De Pequeno caso sério a 20.03.2017 às 22:57

Quando chegamos aos quarenta, descobrimos que a vida (aquela que interessa) ainda agora começou.

;)
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De M.J. a 22.03.2017 às 10:16

(mais aliviada).
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De RC a 21.03.2017 às 19:34

Dizer que gosto disto é dizer pouco. Não imaginas a felicidade que sinto por te saber finalmente suficiente para seres feliz <3
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De M.J. a 22.03.2017 às 10:17

(e eu agradeço. fazes parte dela).
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De OKaede a 21.03.2017 às 23:38

Nunca tinha pensado sobre um possível "eu" a espernear a minha velhice num lar da forma como tu descreveste. A minha inteligencia ou imaginação nunca me permitiu (um velho com a minha pretendida independencia ou porque simplesmento penso sempre em destinos fatais mais precoces), mas talvez seja a minha realidade.
As pequenas coisas trazem felicidade, mas também, por momentos, sinto-me feliz por teres encontrado a felicidade - talvez só o sinta porque gosto das tuas palavras.
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De M.J. a 22.03.2017 às 10:17

(e eu gosto imenso que gostes. mesmo).

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