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depressão

por M.J., em 01.11.15

não sei se já falei, aqui, abertamente, do cancro da alma, aberto em metástases pelo corpo, pelas decisões, pela vida. se já disse aqui, sem subterfúgios, das minhas incapacidades, desistências, anormalidades e dores. da doença que passei, que enfrentei sem querer enfrentar, das opções que tomei por não saber melhor, por estar cega, por estar doente.

talvez nunca tenha falado.

seja como for falo hoje. durante anos passei por uma depressão. daquelas a sério. deixei de achar que acontecia só aos outros, aos fracos, aos pequenos, aos que não tendo coisas a sério com que se revoltar, dos que não tendo problemas cabeludos pegavam nas suas pequenices e transformavam-nas em doenças, apenas para ser apaparicados. apenas porque não conseguiam ser melhores, os coitados, que não sabiam da vida.

depois, nesta coisa fantástica que é o mundo, transformei-me eu numa coitada, numa dessas que desprezei abertamente. os motivos não são relevantes, apesar de serem o centro, mas os sintomas, a dor, a perda de chão e de vida é. não tomei, conscientemente, jamais - como poderia aliás? - a opção de ficar doente. não acordei, de manhã, um dia, num sábado reluzente, a pensar "a minha vida é tão boa que vou apimentar isto e começar a chorar pelos cantos."

não, infelizmente não.

não fui eu que chamei o nevoeiro cerrado, negro, a revolver-me os dias e as horas. não fui eu que afundei, por querer, o barco que era a minha vida e fiquei sentada, nos destroços, à espera de afundar também. não fui eu que só porque sim, porque não tinha mais para fazer, decidi desistir de tudo o que conquistara a pulso, com esforço, do nada. não fui eu que pus, apenas por querer, trabalho, amigos, família, a vida em causa.

quando desci literalmente ao fundo, quando deixei de dormir, quando deixei de comer, quando deixei de ser eu e passei a ser um fantasma do que fora um dia, quando deixei de saber falar ou dizer frases completas, quando deixei de conseguir escrever coisas que não soassem a despedida, quando comecei a pensar, viver, absorver somente a minha dor, quando deixei de conseguir ver os outros como eram porque só a minha ferida contava mais, quando desisti e atentei, por fim, contra a minha vida, numa contradição de sentimentos em que o instinto de sobrevivência lutava com tanta força que me incomodava... quando tudo isso foi, enfim, uma realidade e eu deixei de ser quem fora, quem sou e me tentaram internar, na única salvação de mim própria as reacções foram muitas, imensas.

ao meu redor toda a gente, a que gostava de mim, a que não gostava, a que me considerava amiga, a que não considerava, os familiares de sangue, os outros familiares, só de amor, reagiram em massa. houve gente que se despiu para que me pudesse entregar uma roupagem de amor. que ficou, incondicionalmente do meu lado. que escalou as montanhas da minha agressividade, do meu desprezo, do meu cinismo, do meu buraco negro de dor em que me fechara, apenas para me tentar salvar. houve gente que riu, que encolheu os ombros e disse que aquela, aquele pedaço de pessoa que um dia tivera garra, lutara, caminhara pelo mundo com a arrogância dos convencidos encontrara agora uma forma de chamar a atenção.

houve de tudo, de todos. nunca pedi nada. a pedir alguma coisa pedi que me ajudassem a morrer. não implorei atenção. tinha a alma em cancro mas nunca perdi o orgulho. desaprendi de gostar. desaprendi de viver. desaprendi o sabor do chocolate, o quente da lareira, o chá a ferver. desaprendi das maravilhas de um livro, de um filme ou de uma risada. desaprendi de rir. desaprendi de respirar. 

como disse houve de tudo, de todos. como disse a dor que eu tive, o cancro no alma, o nevoeiro, a dor de mil ossos a partirem-se no corpo foi minha. os cortes afiados com a gilete foram no meu braço. as noites intensas sem dormir foram no meu corpo. a ausência de alimentos no corpo foi no meu. a perda de oportunidades profissionais foi na minha carreira. a perda de pessoas que amava foi também na minha vida. não foi na dos outros mas foram eles que me ajudaram a escalar o poço, mesmo com as minhas farpas afiadas, com as minhas navalhas em palavras, com a minha agressividade na voz.

ninguém é obrigado a perceber a dor incomensurável de uma alma aberta em ferida, de uma ausência de rumo, do fracasso do que somos por uma doença. não é compreensível a todos. também o não é a existência de brancos e pretos, de muçulmanos e cristãos, de velhos e novos, de gays e heteros. há assuntos que simplesmente não são assumíveis por todos. e se não os queremos compreender - que é licito - também não há motivo acharmos que somos mais, maiores, melhores do que quem sofre de um cancro na alma porque entendemos que o cancro na alma não existe.

eu não pedi para o ter e nunca pedi para mo tirarem (o orgulho nunca deixou).

e a dor maior, essa meus senhores, foi minha, é minha e será sempre minha. é que, infelizmente, existirá sempre a puta da depressão na minha vida e só eu, repito só eu, sei a puta da dor que ela me provoca.

 

 

agora: alguém é servido de um tinto? 

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publicado às 17:56


72 comentários

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De Fatia Mor a 01.11.2015 às 18:33

Manda vir o tinto que eu bebo um copo contigo!
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De M.J. a 01.11.2015 às 18:50

dois tintos a sair com um rissol a acompanhar.
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De Dama de espadas a 01.11.2015 às 18:33

De alguém que sabe bem do que falas....
Um beijo (se me permites a ousadia)
E manda masé um verdinho que não sou gaja adepta de tinto
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De M.J. a 01.11.2015 às 18:51

sai também um verde. :)

(obrigado).
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De ana a 01.11.2015 às 19:08

Um beijinho enorme :)

(tu também fizeste parte dos outros, dos que me ajudaram a escalar o poço. Um enorme obrigada por isso! E já sabes, estou aqui também)
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De M.J. a 02.11.2015 às 10:55

dois beijinhos enormes.
:)
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De petrolina a 01.11.2015 às 19:32

Vivo há anos com a sombra de que ele (o cancro da alma)/reapareça e me leve de novo a mil amarguras e dores que nunca pensei ser capaz de sentir. Era lá eu alguém com personalidade (o que quer que isso valha para o caso) para ter uma depressao! Cá nada. Acontecia so aos outros
.. Só que não. Um beijo e um tinto para mim
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De M.J. a 02.11.2015 às 10:55

dois tintos. é manhã mas não interessa. saem já dois :)
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De kikas a 03.11.2015 às 12:47

Achas que essas coisas só acontecem aos fracos , e um dia essa puta bate-nos à porta. E aqueles que um dia chamámos amigos, foram o primeiros a apontar o dedo e a empurrarem-nos para o charco ao invés de nos darem a mão. Sei bem do que falas.
Não gosto de vinho, para mim é um copo de vodka com limão e pouco gelo.

beijos
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De M.J. a 10.11.2015 às 10:53

ainda vai a tempo, a vodka?

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De Violinista a 01.11.2015 às 20:14

Gosto de ti que consegues escrever esta verdade nua e crua da suprema dor da alma.
E depois não sei bem o que dizer mais. A depressão é uma coisa solitária, que corta laços entre pessoas e torna as palavras inúteis. Felizmente há pessoas que conseguem furar isso.
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De M.J. a 02.11.2015 às 10:55

nunca se fura totalmente.
eu por exemplo, sou uma anormal socialmente. mas de uma anormalidade atroz.
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De Me, myself and I a 01.11.2015 às 20:34

Tao profundo que nos toca a alma!
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De M.J. a 02.11.2015 às 15:08

és um doce. são apenas palavras com uma tentativa (fraca) de transparecer sentimentos, vivências e dores.

tenho para mim que escrevo melhor da dor do que dos dias sem ela. vá-se lá entender.
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De Me, myself and I a 02.11.2015 às 15:16

Devo te dizer (o que tu já sabes) que as tuas palavras são fortes e cheias de profundidade. E eu gosto de lê-los porque parece que estás a descrever a minha dor e sofrimento! Parece-me estranho mas apesar de nunca ter passado por uma situação dessas identifico-me com as tuas palavras! I`m a freak, i know!!!
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De M.J. a 03.11.2015 às 11:23

consegues identificar-te com elas porque tens uma sensibilidade acima da média e, como tal, consegues - contrariamente à maioria da humanidade - colocar-te no lugar do outro. neste caso, no meu lugar.
acho.
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De Me, myself and I a 03.11.2015 às 11:31

Obrigada pelo elogio, mas tenho que discordar dele!
Se eu contasse a muito boa gente que há alguém que acha que tenho uma sensibilidade acima da média iria rir na minha cara! Mesmo tipo GANDA LOL! A ideia que a generalidade das pessoas têm de mim é que sou distante e fria!
Mas efetivamente, reconheço que é meu "defeito" conseguir-me por no lugar das outras pessoas e raramento julgo as decisões que as pessoas tomam, pois só quem as toma sabe o porquê!

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De M.J. a 03.11.2015 às 11:35

não interessa a ideia que a generalidade das pessoas tem de ti. interessa a ideia que tu própria tens de ti. e eu, já agora, que nunca me engano.
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De Me, myself and I a 03.11.2015 às 11:44

E raramente tens dúvidas?
Se assim é M.J. a Presidente!
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De M.J. a 10.11.2015 às 10:53

e já!
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De me a 01.11.2015 às 22:47

Admito q n imagino o q isso seja. Espero nunca saber.
E seria cínica se n admitisse q por vezes me questiono como é q as pessoas chegam a esse estado (não tenho problemas em compreender em determinados casos, uma mãe q perde um filho, perder um marido, uma doença grave mto próxima...noutros casos, intriga-me, n vou mentir.)
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De M.J. a 01.11.2015 às 23:08

É o que não me farto de dizer: da dor de cada um só cada um sabe. Ninguém tem de entender a dor do outro, se nao quiser. Só não precisa de apontar o dedo porque a quem dói não serve de nada e a quem aponta... também não :) (e atenção que não creio que apontes o dedo, apenas te questionas, tal como eu questiono acerca de tantas outras coisas :) )
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De me a 01.11.2015 às 23:17

Exacto. Não aponto. Não me arrogo a ser dona da verdade. Já me questionei, mas, provavelmente, pq nunca passei por isso (felizmente) e me sentir intrigada. Mas acredito q hajam razões ou até não...shit happens, isso eu sei.
Não censuro e n aponto o dedo (a única censura q já fiz a algo deste género foi a falsa baixas por depressão (e sim, eu sabia q era falsa, e sim, isso mete-me bue nojo.)
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De M.J. a 01.11.2015 às 23:22

Lá está é isso mesmo. E no caso das falsas baixas são repugnantes em todos os casos: falsas depressões, falsas amamentaçoes, falsas doenças. Infelizmente existem e vão sempre existir.

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De me a 01.11.2015 às 23:28

Tens toda a razão. Sad but true. Vão mm sp existir, e sejam pq razão forem são sp erradas. O q me lixa é q são essas merdas q depois lixam os outros, os q necessitam mm. Quer seja pq levam a cortes de benefícios, quer sejam pq conduzem a apontar de dedos... Mas é mundo em q vivemos. Parasitas vão sp existir né... :(
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De M.J. a 02.11.2015 às 10:56

iep. nem com desparasitante lá vai :)
é seguir com quem interessa. :)
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De Flor de Sal a 02.11.2015 às 00:42

Conseguiste pôr por escrito tudo o que sinto e não quero ou não posso exprimir. Chorei a ler-te agora (o que é estranho já que, normalmente, daqui só levo gargalhadas). Gosto de saber da tua dor, não porque isso me faça feliz, apenas me ajuda saber que não estou só. Obrigada.
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De M.J. a 02.11.2015 às 10:56

oh estamos sós sem nunca estar. pelo menos na dor. :)

sai um tinto?

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