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disto da solidariedade

por M.J., em 28.06.17

ontem segui o concerto que juntou tanta gente e que, segundo os apresentadores, fez história em portugal.

história meus senhores. como se fosse preciso mais história que não o destruir de tanta família.

história, portanto, em nome das vítimas, diziam eles. 

 

sempre que ouvia em nome de não conseguia parar de pensar numa foto que circulou de uma família completa - mãe, pai e dois miúdos - mortos nos incêndios. uma família fotogénica, bonita e jovem.

uma família cujo perfil de facebook foi escarafunchado até à exaustão aquando da incerteza da morte de todos, e na confirmação posterior.

uma família que morreu de uma forma absolutamente atroz.

e um resto de família que ficou e viu as fotos espalhadas pela net como cara de desgraça.

 

pensava nessa fotografia e não conseguia sentir que fosse justo, bonito ou simpático o uso deles, o em nome deles, para reunir um monte de cantores em atuação de festival.

em nome das vítimas, pois então.

como se fossemos donos e senhores delas e pudéssemos usar quem foram, e o horror que lhes aconteceu, para um festival de cantorias, músicas ridículas de não dá, não dá, peidos - sim, o facto de ser um bom interprete não dá direito a uma arrogância desmedida - és bela e feia, chega de desgraças e tanta coisa que fui ouvindo.

músicas que nada tinham a ver com as vítimas e que podiam até, em última instância, serem de grandessíssimo mau gosto e de uma insensibilidade atroz.

e mesmo assim, houve toda uma cantarolada com luzes e festa e gritos e histerismo.

um arraial popular em "nome das vítimas" com a justificação "de que a vida segue".

 

aquela família que morreu - novos, felizes, o sinónimo de futuro e esperança desfeito literalmente em cinzas - não era minha.

mas se fosse, juro, sentir-me-ia no direito de perguntar quem deu autorização de falarem em nome deles.  

 

que se queira ajudar é louvável.

que o país se junte para ajudar é mais louvável ainda.

mas que seja preciso arraiais, festivais, cores, luzes e músicas absurdas para isso, usando argumentação obtusa e assumindo que é em nome de quem não está, parece-me egoísta.

 

não foi em nome deles, não para eles, nem por eles: 

talvez tenha sido para ajudar quem fique se, efectivamente, o dinheiro lhes chegar.

 - por que é que depois destas acções não há um arraial para mostrar o que o dinheiro fez efectivamente no terreno? - 

 

se não lhes chegar...

bem, chegou-lhes - possivelmente através da tv - a cantoria, os risinhos, os gritos de felicidade, o histerismo e a alegria.

e acham isso empático da dor de quem perdeu tudo?

 

a vida segue, eu sei.

mas não acredito que siga tão rápido que, uma semana depois, já estejam as vítimas que restaram prontas a ir para a festa. 

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publicado às 14:40


11 comentários

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De Violinista a 28.06.2017 às 15:03

Aqui me confesso: a ideia pode ter sido muito bonita, e podem ter tentado ser muito solidários, mas como pessoa que já tocou num concerto de solidariedade (para com os refugiados) e já viu aquilo tudo por dentro, não tenho a mínima fé no acto.
Quem vai para lá tocar vai para lá tocar a pensar em muitas coisas, que pode incluir as vítimas, e pode não incluir. Pode-se perfeitamente ir para um concerto a pensar noutra coisa que não "coitadas das vítimas". Peço desculpa, mas é assim. Por isso aquilo é um concerto e não deixou de ser um concerto. E nem sequer tentaram fazer a coisa mais solene porque transformar aquilo como deve ser já partia para coisas mais fúnebres, e ninguém quer assistir a coisas assim. Ou, pelo menos, é a minha ideia (tanto a do pessoal não querer assistir, como a de que a Marcha Fúnebre de Chopin ou o Adagio para Cordas de Barber se adequa mais ao momento, se bem que não posso nunca ser eu a ditar de que forma preferem as outras pessoas lidar com a dor), mas posso perfeitamente estar errada. Com os intérpretes que teve. E, não comentando a qualidade dos intérpretes quer como músicos quer como pessoas, a partir do momento em que incluem a união das santas casas da misericórdia ao barulho para os donativos, estragou-se logo a última esperança que era a de que ao menos os donativos chegassem a quem, de facto, precisa.
Começo a não querer tomar parte de nada disto. Mais valia agora deixar as pessoas em paz, parar com as imagens, dar espaço para recuperarem (fisicamente vai levar anos, psicologicamente não sei se se recupera assim de um desastre destes).

(Pergunto-me, do nosso concerto, de facto quanto do dinheiro chegou aos refugiados, mas se calhar ficamos todos melhor se não pensarmos nisso).
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De Olivia a 28.06.2017 às 15:07

Se estivesse ao pé de ti dava-te um grande abraço. E um beijo repenicado.
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De M.J. a 28.06.2017 às 15:09

talvez seja bem vindo que, tendo em conta o facebook ontem, talvez venha aí algum insultozito.
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De Olívia a 28.06.2017 às 16:19

MJ algumas famílias só agora poderão fazer os funerais, achas que querem saber de festivais e cantorias? Famílias inteiras desfeitas estão neste momento preocupadas com ao dinheiro?
Não seria preciso tempo?
Equipas no terreno, com pedidos concretos?
Precisamos de limpar a estrada e custa x, precisamos de construir 20 casas ali, custa y, e então quem pudesse contribuía, eu continuo à espera deste tipo de pedidos para ver o que poderemos dar.
Serei evidentemente fuzilada em praça publica por este tipo de comentários, mas olha... paciência!
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De Gorduchita a 28.06.2017 às 15:14

Acredito na boa intenção de quem teve a ideia de organizar tal evento.
Mas tenho também as minhas dúvidas que tenha sido a melhor forma para o que estava em causa.
E nem falo das dúvidas da gestão do dinheiro...
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De marta-omeucanto a 28.06.2017 às 15:26

Como ajudar as vítimas desta tragédia que ficaram?
Ajudando a nível médico, para os que ficaram feridos. Dando apoio psicológico, que vão precisar.
Pondo mãos à obra, com aquilo que cada um sabe fazer. Limpar os destroços, construir novas casas para quem ficou sem elas, oferecendo mobílias e bens para que possa refazer as suas vidas, criando postos de trabalho.
E de tantas outras formas, mais práticas e úteis.
Não duvido das intenções de quem comprou os bilhetes solidários. Questiono se o dinheiro angariado chegará, efectivamente, às mãos das vítimas, e caso chegue, quanto dele, e quando chegará.
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De Gaffe a 28.06.2017 às 15:45

Preenches o impresso 205-A -oliveiras queimadas, depois vais ao departamento das castanhas assadas, preenches o impresso 450-B e diriges-te ao balcão dos casos específicos onde preenches o impresso 789-C que prova que não foste tu a descarregar o raio e aguardas sentada nas cinzas que cheguem os carimbos.
Não te esqueças do impresso 007.
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De Gaffe a 28.06.2017 às 15:52

Sabes, meu amor, devias ter feito como eu e visto antes a série do canal 2. Nos intervalos espreitavas a festa.
Uma belíssima série, sem os D.A.M.A. a darem.
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De M.J. a 28.06.2017 às 15:57

fui vendo aos bochechos, nos intervalos de uma apresentação que preparava.
fui vendo para ter noção do ponto a que chegamos:
é incrível como até nisto somos um povo de festival, fátima e futebol.
estivesse o papa e uma decoração azul, vermelha e verde e o salazar, lá do outro lado, tinha tido um orgasmo.
(antes de voltar a morrer com o peido do sobral).
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De Dulce Porto a 28.06.2017 às 18:59

Há sempre uma primeira vez para tudo. E não consigo resistir mais a comentar o seu blogue, de que gosto tanto...

E aquela esbardalhada da Raquel Tavares a pedir às pessoas para irem lá (a Pedrógão) em romaria, nem que fosse só para dar um abraço a quem tanto sofre...

Estava precisamente a comentar esse assunto com a minha colega de trabalho, porque vi, julgo que no fim de semana, uma reportagem de uns voluntários que foram de Lisboa entregar cenas às pessoas... e informaram as televisões para os acompanhar nesta missão. Pareciam as tias a dar aos pobrezinhos umas bolachinhas, coitadinhos. E sempre com as câmaras por perto.

Eu sinceramente acho que as pessoas devem estar fartinhas, fartinhas, de repórteres, câmaras, gente que não conhecem de lado nenhum a entrar-lhes pelas portas adentro.
Já agora, digo-lhe que mandei um mail para as Câmaras de Pedrógão, Figueiró e Góis, a disponibilizar-me para ajudar - e quicá mobilizando um grupo de amigos - a reconstruir as aldeias. Trabalho de pá e enxada.
Responderam-me a agradecer. Num dos mails, dizem-me que neste momento estão a chegar voluntários de todo o lado que chegam com boa vontade e com donativos mas que exigem mais atenção do que a que dão. Não foram bem estas as palavras, mas foi mais ou menos isto. No fundo, tanta gente está a atrapalhar mais do que a ajudar. As pessoas precisam de sossego, precisam de espaço e tempo para se organizarem.
E isto não é "pobres e mal agradecidos", é o "vamos lá ver a desgraça dos outros" enquanto está quente (o adjetivo não podia ser melhor). Daqui a algumas semanas já ninguém vai a Pedrógão, porque entretanto as TV's já esgotaram o assunto...

(Para um primeiro comentário... excedi-me, não?)
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De Cristina a 28.06.2017 às 21:29

pois é. o imbecil do Salvador conseguiu resumir tudo: "em nome de"...
cada um, individualmente, que quer ver se consegue ser mais estrela que o outro;
projeção a qualquer custo;
desonestidade nos sentimentos.

a solidariedade, a ajuda, a empatia, não se publicitam. ou existem, ou.

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