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disto do #metoo

por M.J., em 17.01.18

todos os dias surgem "desabafos" de mulheres que admitem agora terem sido assediadas sexualmente.

há uns casos mais graves do que outros.

há quem diga ter sido importunada, na sua vida séria e pacata por um piropo menos bonito, e há quem afirme ter sido violada, abusada contra sua própria vontade.

as duas situações incomodam-me.

incomoda-me a ideia de um homem sentir que pode, de alguma forma, assediar uma mulher pelo simples facto de ela ser mulher e, evidentemente, alguém ser coagido, obrigado a fazer o que não quer.

ponto assente.

 

o que também me começa a incomodar é a maneira como esses abusos e assédios são desabafados.

que as redes sociais são os novos psicólogos, padres, terapeutas, mães, amigos e família, em quem se deposita medos, anseios, dúvidas e traumas, enfim, não é novidade.

todos nós vemos - ou fazemos - coisas idênticas, pequenos desabafos, pequenas tristezas, pequenas histórias do nosso dia-a-dia.

é uma forma simples de nos sentirmos acompanhados, compreendidos e tudo e tudo.

certo.

a questão é que há desabafos e desabafos. 

começa a ser - e não digo "perdoem-me a expressão" - ridícula a forma como estas coisas vêm a público:

numa enxurrada diária de desabafos, de mulheres a levantar a mão e confessar, muito casualmente como quem foi ao pão e comprou branco em vez de integral, "olha eu também". e no meio desses desabafos de redes sociais, as coisas perdem - inevitavelmente - a dimensão real do que são.

deixa de ser visto com o horror que é; com  a indignação que deve gerar; com as medidas que devem ser tomadas; e transforma-se num enorme carnaval até gerar apatia e até ridicularização: "o quê? mais uma? esta também? oh!"

é o "oh, pois claro" que surge.

e - sinceramente, se pensarmos bem - percebe-se que surja (o que é diferente de aceitar e compreender). 

 

as pessoas são de ondas, de modas, de rebanhos.

faz sentido.

e não, não enganemos: somos todos assim. mesmo aqueles de nós que juram - com os pés bem juntos e sem figas - ser diferentes.

não há ovelhas negras, não há pessoas únicas. somos todos moldados do mesmo barro, aderimos todos ao mesmo, seguimos todos o tudo. é normal. faz parte de nós enquanto humanos. mas isso não invalida que não pensemos, de vez em quando, nos actos tomados. 

se é este o momento certo para desenterrar coisas - que nunca deviam ter sido enterradas - e desabafá-las? sei lá! os momentos certos são aqueles em que temos coragem e conseguimos fazer algo. portanto, se há coragem agora que não houve outrora, que assim seja.

o que não faz sentido é que essa coragem - assemelhada a uma coragem líquida passageira - seja transformada em actos nas redes sociais. que essa coragem, tão válida, se assemelhe a uma necessidade de mostrar ao mundo todo o sofrimento, transformado numa espécie de bandeira, numa espécie de - volto a dizer, não me perdoem a expressão - orgulho em pertencer também às vítimas.

o que parece, nesta enxurrada diária de "olha, eu também"... é uma necessidade de pertencer. 

uma necessidade de afirmar, já que estamos nisto, "olhem, eu também pertenci a isso".

 

se pertenceram... é muito mau.

é muito triste.

é muito traumático.

e há sítios onde esses desabafos devem ser tidos. e há instâncias a que se deve recorrer para que não aconteçam mais. as redes sociais não são esses sítios. as redes sociais desvirtualizam, empobrecem e ridicularizam uma situação que é tão triste. e uma causa que é tão nobre.

 

por este andar, não me espanta nada que, daqui a uns dias, o josé castelo branco, de saltos, cabelo empoleirado e a bety ao lado, transformada em pochete, venha escrever também, com as mãos ao alto, " eu também, eu também", na procura quem sabe, de entrar num novo reality show, onde as mulheres são vistas como putas e os homens como machos. 

#metoo?

depende.

tirem-lhe o cardinal e usem as palavras onde devem ser usadas.

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publicado às 11:18


3 comentários

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De Silent Man a 17.01.2018 às 13:31

A mim o que mais me preocupa é eu, casado e pai de um filho, um dia me lembrar de dizer a uma colega que se aperaltou mais "epá xxxx, hoje vens muito gira" e amanhã ter um processo por assédio sexual quando na realidade o que era pretendido era tão somente louvar, sem quaisquer segundas, terceiras ou quartas intenções, o esforço em estar bela e apresentável.

Estamos a cair no ridículo de uma pessoa meter conversa com a outra numa discoteca ou num bar com outras intenções (que é legítimo), levar uma nega (que também é legítimo) e ainda ser acusada de perseguição por cima.

Há limites que não se podem ultrapassar, mas tratar uma abordagem, um flirt ou mesmo uma proposta concreta com a mesma gravidade de uma violação é tão ou mais errado que a própria violação.
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De Fleuma a 17.01.2018 às 16:56

Creio bem que nada nem ninguém melhor do que uma mulher, ela própria, escrever o que aqui foi escrito e pura e simplesmente preencher todos os espaços necessários para colocar um assunto tão sério e grave como este numa verdadeira e realista visão.

Feito. Perfeito.


" deixa de ser visto com o horror que é; com a indignação que deve gerar; com as medidas que devem ser tomadas; e transforma-se num enorme carnaval até gerar apatia e até ridicularização: "o quê? mais uma? esta também? oh!"

é o "oh, pois claro" que surge." - Falava disto e é isto que penso. E aqui é que se correrá o risco de que tais ofensas deixem de ser graves para se tornarem apenas pó para sacudir do ombro.

Apenas mais uma pequena usurpação deste espaço: esta frequência e achincalho de um assunto, repito, brutalmente sério e vergonhoso, está abrir uma caça às bruxas que, a M.J. terá de ser paciente comigo, só me dá vontade de rir pelo seu cúmulo de exorbitante estupidez ignorante. Parece-me que todos os homens são agora passiveis de queima. E tudo isto irá passar de moda, porque a maior parte das criaturas vão querer outras modas e novidades.

Infelizmente.

Mas o que sei eu? Sou apenas homem.
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De Cristina M. a 18.01.2018 às 13:20

#jesuisdeneuve

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