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do aniversário.

por M.J., em 20.05.15

conto esta história todos os aniversários, na lembrança de mim mesma, fugindo ao estilo e ao registo que adoptei para este espaço e para os outros, que fui tendo, e para os amigos e conhecidos. conto-a em cafés, quando partilho este dia com alguém, em chás quentes e torradas, ou em jantares regados a bolos. 

conto-a porque é real e me dói, enquanto minha, ainda que seja certa de verdade e de uma eterna lição que aprendi, creio, tem dias:

 

quando tinha vinte anos decidi que já chegava.

 

reformulo. decidi, aos dezanove, que não queria fazer vinte.

a história é simples, não tem muito que explorar, que contar: todos nós tomamos decisões, melhores ou piores, em momentos de vida que são nossos e não queremos. e eu achava, do alto da sabedoria dos dezanove anos que chegava, era o fim, não me apetecia ter vinte.

tudo muito mórbido, muito tétrico, muito certo num fatalismo idiota que me perseguia e me fazia a levar-me sério, muito a sério, a assumir como todas as dores do mundo as minhas, a doer ainda mais forte; a entender como certas as amarguras que sim, eram minhas, mas não tão fortes que não as pudesse aguentar.

consigo apenas justificar-me pela doença. pelo começo da doença. porque até eu preciso de uma justificação, confesso. 

enfim, adiante. decidi, num sentimento idiota que chegava, era o fim. iria suicidar-me (que foi, meus queridos, tendes medo da palavra?)

o dia amanheceu chuvoso e eu tinha um plano na mente. posso chamar-lhe idiota, ridículo, pequenino, provinciano porque era o meu plano, a minha vida e as minhas decisões. era eu, ainda tão verde daquilo que seria um dia, mas já a antever todo o drama que faria seguir-me nas esquinas. chovia, contava eu, e a manhã não tinha os raios de sol que visualizara no meu plano: porque eu achava, aos vinte anos, que a minha dor tinha requintes sérios e podia nela comandar o clima no fim que decidira.

as coisas que eu achava há oito anos atrás.

saí à rua, mesmo debaixo de chuva, num cliché andante, com penas e certezas. e poderia ser grave, confesso, poderia ter sido grave, assumo, se não fosse eu pequenina, como sempre. quando cheguei ao local, ao dito, que não tinha cheiro a infinito, nem flores silvestres, nem todos os pedaços que eu criara na minha mente para me seguirem nos últimos minutos, uma cobardia imensa invadiu-me a alma.

a cobardia de quem, creio, consegue ver um pouco mais que a dor que carrega e que sabe do fim enquanto fim mesmo.

era então, repito, não controlo as palavras, isto é maçudo, era então aquilo o fim: eu, aos vinte anos estava ali, no fim dos meus dias, sozinha, numa cidade escura, num dia negro, numa choradeira infantil, numa dor que era muito minha, que me doía mesmo numa certeza infinda.

no último minuto, quando a cobardia ia desaparecendo e eu sabia que as decisões tomadas são para seguir porque só o fazendo podemos estar em paz com a nossa alma (nem sempre, nem sempre, mas enfim) dizia, nesse minuto, o telefone tocou. atendi esfregando as lágrimas e ouvindo do outro lado a minha psicóloga (o quê, também vos mete medo a palavra psicóloga? e se for psiquiatra?). 

sinceramente não me lembro do que disse, mas voltei para casa, molhada, como cão cheirando a pêlo húmido. e nessa tarde, dois dos meus amigos da altura, que eu quase esquecera na dor cortante da alma, trouxeram bolo e e presentes, sorrisos e alegrias e festejaram comigo, sem saber, a decisão de seguir, decisão que me queimava numa culpa envergonhada da minha cobardia.  

 

todos os anos seguintes fui avaliando as consequências da decisão de não manter uma decisão. todos os anos fui constatando, dando conta neste dia, do que me trouxera a minha escolha. hoje não é diferente.

e agradeço, quase em silêncio, à criança que na altura decidiu não seguir decisões de criança e agarrar com as duas mãos uma opção corajosa que lhe cheirava a cobardia.

e olho para mim como há distância dos anos, tendo um imenso orgulho da menina que fui, da mulher que sou e das decisões, quase todas vamos, que tomei, tomo e vou tomar.

 

pronto, é isto. 

no meu dia de anos também tenho direito a lamechice. retomaremos a programação habitual daqui a nada. 

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publicado às 12:46


23 comentários

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De Corvo a 20.05.2015 às 14:14

Boa Tarde, MJ.
Arrepiei-me, sabe? Eu que nada, ou muito pouco espanta ou acha estranho, arrepiei-me com o seu relato.
Nem tanto pela decisão de uma rapariga parvinha, ( na altura, claro) mas pelo que disse a seguir. "Quando a decisão tomava o lugar da cobardia" no último minuto tocou o telemóvel.
No último minuto, no instante derradeiro algo ou alguma coisa aconteceu que lhe disse: volta nos teus passos, ainda tens muito para ver.
No seu caso foi uma chamada. Impressionante, para mim que sei o que isso é. Não pelos seus motivos, terminar voluntariamente nunca pensei, mas já tive tantas situações de fim iminente e no último segundo, no último momento, algo acontece.
Não! Definitivamente! Algo ou alguma coisa de muito poderosa tem interferência nos destinos das pessoas.
Seja sempre muito feliz.
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De M.J. a 20.05.2015 às 15:45

nem sempre consigo acreditar sabe? às vezes que é tudo uma questão de coincidências e que somos pequenos demais, no universo perfeito, para alguma influência superior.
mas depois, em situações destas... depois, não sei.
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De Corvo a 20.05.2015 às 16:20

Mas olhe que há, sim1 Não lhe chamarei propriamente intervenção divina, mas que, por vezes acontecem situações na vida da pessoas que nos fazem questionar do porquê das coisas.
Se puder, e quiser, gostaria que visse isto.
http://navegarmardeletras.blogs.sapo.pt/fintar-o-destino-2204.
E por que lhe chamo a atenção para isto, se na verdade nem sequer nos conhecemos?
Porque foi um pessoa que não obstante a curta idade já viveu uma experiência verdadeiramente terrificante, de um dramatismo profundo e...no último instante uma mão segurou-a.
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De M.J. a 20.05.2015 às 16:35

prometo que irei ler com atenção:)

obrigado.
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De anacb a 20.05.2015 às 14:15

Então parabéns a dobrar: pelas tuas 28 primaveras (sim, sim, primaveras é piroso mas é de propósito; e espero não me ter enganado nas contas :))) ) e pela mais-que-excelente decisão que tomaste naquele dia - caso contrário, como é que poderíamos ter agora o privilégio de te ler, hem? Seria um verdadeiro desperdício. Sinceramente. Beijo
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De M.J. a 20.05.2015 às 15:46

que engraçado. a minha melhor amiga chamou-lhe o mesmo: desperdício.

obrigado.
beijinhos.
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De Maria Araújo a 20.05.2015 às 15:16


Coragem em assumir essa cobardia, nem todos têm.
Parabéns por seres uma jovem mulher , uma grande mulher.
Não me sai mais nada, somente lágrimas.~
Obrigada por contares as tuas estórias.
Parece que não, mas dás-nos lições de vida inimagináveis.
Feliz Aniversário, M.J.
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De M.J. a 20.05.2015 às 15:46

caramba, assim fico emocionada. acho sinceramente que não lhe mereço esse carinho. não sou assim tão boa pessoa como poderá achar.
mas obrigado. mesmo.
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De Maria Araújo a 20.05.2015 às 18:03

M.J. as boas pessoas não são aquelas que andam sempre com merdices atrás de nós, aquelas que se fazem muito amigas e que não têm coragem de nos dizer na cara o que sentem por mais que nos magoe, mas lixam-nos a vida.
As boas pessoas são aquelas que assumem o feitio que têm, que não têm papas na língua, sem serem mal educadas, para dizerem o que sentem.
Tenho amigas que são criticadas pelo comportamento austero que têm, mas são as que eu mais admiro.
Quanto às minhas lagrimitas, já o disse algures num comentário, que sou chorona.
Emociono-me com quase nada.
Beijinho
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De Magda L Pais a 20.05.2015 às 15:19

"tendo um imenso orgulho da menina que fui, da mulher que sou e das decisões, quase todas vamos, que tomei, tomo e vou tomar."

Olha, e eu tenho, hoje, 8 anos depois, orgulho em ti e na decisão que tomaste na altura. Por todas as razões e mais algumas (e ainda por me aturares as indecisões decididas...). Obrigado eu à menina que decidiu não seguir a decisão
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De M.J. a 20.05.2015 às 15:47

ela agradece-te também :)
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De marta a 20.05.2015 às 15:29

Portanto hoje estás duplamente de parabéns, aliás, este texto também é um acto de coragem. Despir a alma em público, ainda que para desconhecidos é acto de coragem, por outro lado, brutalmente libertador.
e agora permite-me dizer-te, 28? 28?!?!?! VINTE E OITO?!
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De M.J. a 20.05.2015 às 15:47

ora essa, pareço ter mais? ai tu não me assustes, já bem basta as brancas na cabeça!
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De marta a 20.05.2015 às 18:27

talvez não pareças ter mais... talvez seja só eu a querer ter menos.
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De M.J. a 21.05.2015 às 11:50

ah bem, assim tá melhor. :P
bom dia.
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De Cris a 20.05.2015 às 17:13

Já tens cabelos brancos?
Parece que aos 19/20 anos dá-nos uma parvoeira (a esta distância é parvoeira, mas na altura não parece). Cá estás e ainda bem...
Agora vai mas é beber um copo!
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De M.J. a 20.05.2015 às 17:23

tenho sim. às dúzias. até mete medo.
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De O Homem Certo a 20.05.2015 às 20:44

Que bonito.
Ainda bem que não te suicidaste, porque assim divirto-me contigo e com os textos.
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De M.J. a 21.05.2015 às 11:50

merci. :)
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De RC a 21.05.2015 às 10:46

Tenho a certeza que já me contaste esta história antes, com a pequena gigantesca diferença de quando a contaste da outra vez não estavas tão orgulhosa das decisões tomadas.
Agora é a minha vez de estar orgulhosa de ti e de finalmente perceberes que viver pode ter dias bons.

Parabéns acima de tudo por seres quem és!
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De M.J. a 21.05.2015 às 11:51

és um doce minha querida.
obrigado.
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De Mom Sandra a 21.05.2015 às 10:59

Já venho tarde, mas eu sou mesmo assim... Chego sempre atrasada! (tão verdade...)

Muitos parabéns!!
Espero que tenhas tido um dia feliz, cheio de coisas boas!!

De vez em quando também sei ser séria e dizer as coisas que qualquer ser humano normal diz...

Beijinhos!
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De M.J. a 21.05.2015 às 11:51

obrigado.

beijocas.

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