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do cansaço existencial

por M.J., em 01.06.15

às vezes sinto um cansaço existencial que se cola nos ossos e me embaraça a alma. não é sempre. são apenas uns repentes que me arrepiam a pele e me encharcam, em momentos difusos. se em tempos eram dias inteiros desse cansaço agora são só minutos, breves, passageiros, diria que repentinos até, mesmo que se arrastem no corpo como horas em que esperamos uma boa noticia que tarda em vir. e não vem.

durante esses minutos sinto um nojo, uma repulsa por tudo o que me rodeia. não encontro em nada, em ninguém, em nenhum espaço, em nenhum objecto dizia, não encontro nada que me complete, que me preencha no que sou e não sei definir. olho com raios de desprezo cada pessoa, cada pedaço de mim e espero, em ânsias, uma solução que me livre desse sentir que se assemelha a um não sentir.

nada do que faça nesses instantes resulta.

de nada servem as pequenas coisas com que nos enchemos e onde mergulhamos para ocupar o tempo de que somos feitos. e suspiro, quase bufo, numa apatia e indiferença pelo privilégio de respirar, de sentir o coração a bater, de ser.

disse-me um dia alguém, quando lhe contava distraída estes achaques, que a solução que o ser humano encontra, nesse vazio, é a reprodução. e que essas coisas, essas inutilidades de alma, são estratégias evolucionais para que nos propaguemos no sentido de sermos.

 

não sei. sei que me recuso a assumir-me assim, nessa banalidade. pego no cansaço, renomeio-o de spleen e fico quieta, languidamente, à espera que passe, num lamento por ser.

há quem o ache interessante. 

 

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publicado às 10:23


10 comentários

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De Cris a 01.06.2015 às 11:08

Isso parece-me uma depressão mal curada...
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De M.J. a 01.06.2015 às 11:58

Poderá ser. há quem avance que depressão não tem cura :)
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De Maria a 01.06.2015 às 12:08

Não o conseguia dizer/escrever melhor, é mesmo isso que sinto, mas comigo não é por minutos breves, são dias inteiros! E não sei o que fazer para alterar esse estado!

Nunca comentei mas gosto muito do seu blog, obrigada!

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De M.J. a 01.06.2015 às 12:17

Maria, quer enviar-me um e-mail?
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De Maria a 02.06.2015 às 13:14

Obrigada pela atenção M.J., mas hei-de encontrar uma solução para o meu cansaço existencial!
E tem razão, temos que encontrar o nosso caminho, seguir os passos dos outros, só porque a maioria faz assim, não é solução!
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De M.J. a 02.06.2015 às 14:23

então só me resta agradecer Maria, por passar por aqui.

estou por cá, sempre que quiser.
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De Cris a 01.06.2015 às 12:21

o que descreves como "cansaço existencial" da alma, eu sinto como "saturação do mundo e arredores"...
e por vezes é mesmo difícil apontar o dedo ao que nos faz sentir assim, mas concordo é esperar que passe...
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De M.J. a 01.06.2015 às 12:32

e acaba por passar. acaba sempre por passar.
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De Elsa a 01.06.2015 às 13:36

Palavras muito poderosas que tens aqui, tocam-me profundamente. Às vezes também me sinto como tão bem descreves, nessas ocasiões parece que fico anestesiada, para não me perder onde sei que não quero. Incomoda-me tudo à minha volta, preciso de um deserto, de um vazio, de um sítio onde ninguém me alcance. E ficava lá até encontrar-me de volta. Encontrar o meu propósito... Se é que tenho um.

E isto mói. Creio que por isso muitas pessoas acabam por ter filhos, para preencher essas lacunas emocionais que se vão criando ao longo da vida e que de outra forma não o conseguem, e nem mesmo o materialismo é suficiente. Mas a minha existência não se pode resumir a isso, quero preencher essas lacunas de outro modo. O difícil é encontrar o caminho certo. Se é que há um.

Desculpa o testamento, mas inspiras-me ;)
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De M.J. a 01.06.2015 às 13:45

Elsa,

é exactamente esse o problema: encontrar o caminho, o sentido, seja o que for, sem cairmos na solução mais lógica, mais fácil. porque é mais fácil seguires a evolução, fazeres o que o corpo pede nas artimanhas evolucionais.
só que isso torna-nos banais. é o que penso.
as pessoas enchem os seus instintos, seguem-nos e depois apregoam ao mundo que encontraram um sentido muito único quando o sentido é igual ao de toda a gente. apregoam que são especiais por produzir outras pessoas, outros seres, quando toda a gente o faz, basta querer, de melhor ou pior forma.
o difícil não é encontrar o mesmo caminho que todos encontram. o difícil é encontrar o caminho próprio. e claro, talvez contradizendo-me, se for parir pois que seja. mas não vale nada tanta publicidade: não há nada de extraordinário nisso. é só corriqueiro.

(um dia ainda vamos parir e engolir estas palavras todas)

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