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do concerto

por M.J., em 22.03.15

fomos ao teatro aveirense ver os linda martini. senti-me deslocada mal cheguei. na verdade, a roupa que me serve ultimamente é demasiado formal pelo que estava de saia, blusa e sabrinas quando o que queria mesmo era ténis e jeans.

uma tristeza.

ficámos sentados na plateia, quase à frente. quando a música começou percebi logo que nem a sala nem o equipamento de som estava preparado para o concerto. o som ficava abafado e forte demais e as notas distorciam-se no ruído que tudo aquilo provocava. ainda assim, a meio, no "partir para ficar" desatei a chorar tocada pela música que me entrava cérebro dentro e me impedia de pensar, racionalizar ou outra merda qualquer que não fosse aquele sentimento saudosista de dor tóxica de que fui feita, em tempos.

no "amor combate" o pessoal saltou para a frente do palco, em pé. contive-me para não me juntar ao magote. no fim da música a sala estava praticamente em pé e só nessa altura reparei na miúda da frente. estava sentada hirta, sem se mexer. quando as pessoas não se sentaram, continuando aos pulos, bateu desenfreadamente no rapaz da frente dizendo para ele se sentar. o rapaz ignorou-a pelo que ela decidiu ir queixar-se à funcionária, na porta, ali ao lado.

a funcionária olhou-a com ar de quem não pode fazer absolutamente nada. as pessoas saltavam freneticamente nos lugares, no seguimento da música que inundava tudo. a rapariga, de cabelo muito esticado e blusa de seda, trés chique, voltou ao lugar onde, quase histérica, desatou a gritar ao namorado para que resolvesse a situação uma vez que ela não conseguia ver nada. o namorado, sem acreditar no que ouvia, abanou ligeiramente a cabeça, gritando que não podia controlar o resto do mundo.

pelo que, meus senhores, a rapariga ficou em pé o resto do concerto, de braços cruzados, hirta e séria na sua blusa transparente, sem mexer a cabeça ou os ombros, sem se entregar à musica, numa compenetração quase religiosa de quem assistia à procissão das velas na quinta feira santa à noite.

e nem quando toda a gente cantava "foder é perto de te amar" ela bateu o pé ou abanou a cabeça.

tive, confesso que sim, agora que penso nisso, muita pena da mulher.

 

(o concerto, fora os óbvios problemas de som, foi fabuloso).

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publicado às 01:34



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