Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




do empate - republicação

por M.J., em 19.06.15

- pois que isto é como um jogo empatado,

eu ouço. caminham os dois, lado a lado no passeio. estou atrás dele, mala na mão, lancheira no ombro, casaco debaixo do braço. a minha cara é fechada de trombas do dia, que está solarengo, mas me passa distante, amuada a desejar chuva e dias feios, na igualdade do espirito. 

- o jogo acaba e vai-se para prolongamento,

sou obrigada a ouvir, que estão mesmo à minha frente e tenho preguiça de me mudar, de os ultrapassar. ajeito melhor a mala, o casaco, abrando o passo, olho pela primeira vez na manhã o céu límpido de azul, translúcido em poeiras que vagueiam pelo ar, brilhantes do sol.

- e no fim do prolongamento continua-se empatado e em vez de se ir para penaltis não, prossegue-se o jogo.

não percebo de futebol, mas ouço. vejo ao longe as noites sentada no banco, almofadado e pequeno, na cozinha, manta no chão, a olhar a televisão, futebol, vozes alteradas. marca, marca, dizia e alguém marcava e ganhava.

- e ninguém ganha, percebes? continua-se em prolongamento até o pessoal estar esgotado de desemprego, fome, miséria. esta merda é um jogo de futebol empatado, ouve o que te digo.

faz-me sentido, ainda que não faça. caminham os dois sempre no mesmo passo, cabelos grisalhos, casacos idênticos, sapatos desportivos. o que fala gesticula muito, tem a voz seca, longa, arrastada na manhã. não deram conta que estou atrás, quase param na conversa.

- então e quando o pessoal estiver esgotado?

a pergunta, feita pelo outro, no ar.

- aí a malta revolta-se e mata o árbitro. nessa altura o jogo começa outra vez. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:26


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Cris a 19.06.2015 às 18:52

pois, é capaz de ser isso mesmo...

Comentar post



foto do autor