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do enterro

por M.J., em 15.05.15

fui ao enterro ontem. tenho muita coisa para fazer, é certo, em prazos apertados, mas a cabeça doía e já que posso estar na latência de uma doença que me ponha de pés para a cova, achei que era adequado ir a um enterro.

nunca gostei de festejos académicos. minto, gostei uma vez antes de entrar na faculdade e ver um tipo vestido de preto. aquilo ficava-lhe bem e eu achava que seria uma coisa supimpa, andar assim vestida. depois mudei de ideias quando no primeiro cortejo, a primeira vez em que vesti aquela trampa, fui "obrigada" a vir para casa a meio, os pés mortos de dor, e encontrei à porta do prédio uma ambulância e uma moça obesa, desmaiada de bêbada, a vomitar de esguicho em cima dos bombeiros e com as mamas de bisonte à mostra. creio que foi trauma mas deixei de gostar.

uma atadice da minha parte, eu sei.

mesmo assim ontem fui. o enterro é substancialmente diferente de cortejo de coimbra. acho-o despretensioso, sem o peso de uma tradição que já não se adequa, num ambiente descontraído sem meninos bem em cima de carros engalanados como andores da senhora da agonia. aqui os carros são feitos em dois ou três dias, numa simplicidade engraçada e o único pretensiosismo é ver quem consegue fazer melhor com menos dinheiro.

em coimbra os meninos unem-se em torno dos papás para fazer flores, num serão familiar, e dormem em turnos ao pé do carro para ver se os vizinhos não os incendeiam. na universidade, como na vida, dizem eles que a competição é fulcral. mesmo quando se compete para ver quem tem mais dinheiro estoirado em alcool e papel.

bem bom!

confesso que coimbra me enjoa, visto agora à distância. tem um pretensiosismo idiota, numa coisinha de fofinhos de papás, num achar que as tradições foram feitas para e à sua medida em catraios que enfim, posso garantir - ouvi com estes ouvidos que a terra há-de comer - não sabem sequer quando e o que foi o 25 de abril (e então, maria joão, em espanha também há vinte e cinco de abril? perguntava a avó com ar malandro enquanto eu dava voltas à cabeça recordando o que sabia da coisa, para responder um sonante não. ai é, então do vinte e quatro passa-se para o vinte e seis, é?).

voltei a casa já tarde atrás de um senhor que levava nas mãos dois sacos cheios de latas de cerveja (cheias, bem entendido) e com a garganta apertada porque o enterro era encimado (tão bem esta palavra aqui, não é?) por um pónei que transportava o dito morto, num passo acelerado, acompanhado do dono. e não consegui descansar enquanto não vi o desgraçado ser liberto da carga, já no fim, com uma vontade louca o tempo todo de o tirar dali, enquanto o rapaz me dizia, que raio maria joão, ninguém está a fazer mal ao bicho

que quereis? há quem se insurja contra o bullying de pessoas, eu é contra o de animais. mesmo quando ninguém lhes está a fazer mal nenhum.

talvez devesse efectivamente, ter nascido numa cabra. 

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publicado às 10:24


5 comentários

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De Magda L Pais a 15.05.2015 às 11:27

e então, maria joão, em espanha também há vinte e cinco de abril? perguntava a avó com ar malandro enquanto eu dava voltas à cabeça recordando o que sabia da coisa, para responder um sonante não. ai é, então do vinte e quatro passa-se para o vinte e seis, é?).
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e a quantidade de gente que cai nesta? vezes sem conta?...

quem é contra o bullying de animais tambem é contra o bullying de pessoas.
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De agridoce a 15.05.2015 às 18:25

oh... que nostalgia.

apercebi-me que era ontem pelo facebook. e se não estivesse tão cansada, acho que tinha pegado no carro e feito os quilómetros que me separam de lá.

e, sim, é diferente de coimbra! para mim, em tudo! coisa que não me arrependo: não ter pedido transferência para a FEUC e ter ficado por lá.

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De M.J. a 15.05.2015 às 18:28

eu tenho pena de não ter escolhido alguma coisa que me tivesse permitido estudar aqui.
é incompravalemente diferente para melhor. não só o ambiente académico como o campus e o ensino. coimbra cheira a velho e vive à sombra dessa velhice.
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De Cris a 16.05.2015 às 22:08

Vá, eu conto as minhas aventuras da queima, para te rires (ou não?): fui poucas vezes à dita cuja, mas, na primeira vez que fui, mandaram-me com vinho rasca para cima e eu, claro, fui logo para casa tirar a roupa e tomar um banho. Não me lembro se olharam para mim de lado no percurso até casa devido ao cheiro, porque eu estava literalmente fodida e com vontade de esganar o caralho que me fez aquilo!
Duma outra vez fui ao queimódromo e foi a primeira e a última vez: fiquei esclarecida ao ver um estudante a arrastar-se pelo chão, completamente bêbado, sem saber aonde estava, num espectáculo degradante. A ambulância estava a chegar...
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De M.J. a 16.05.2015 às 23:09

nós teríamos sido amigas em tempos de guerra como aqueles!

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