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do facebook

por M.J., em 19.03.15

tinha a face pálida e um sorriso aberto. juntava as palavras em poemas que lançava à rua, como trinados de pássaros e folhas secas de outono. não levantava a voz do aveludado doce dos pêssegos e irradiava um odor de maçã e canela.

tinha os olhos em fuga, num voo de gaivota.

 

um dia morreu, sem que a face pálida envelhecesse ou o mundo que era o seu pudesse apagar-lhe o sorriso. sem juntar todas as palavras que eram suas. sem ter levantado a voz nas frases que juntara, todas, para gritar um dia. sem despir a maçã e canela para vestir limões e tulipas.

sem parar os olhos.

 

e os amigos, que não lhe viram a face corada, as lágrimas escondidas, os olhos quietos, a voz alterada fazem-lhe homenagens públicas, no facebook, em fotografias e longos textos de amor. para todo o mundo ver. para todo o mundo sentir.

em louvores online de palavras copiadas do citador.

 

se nos medimos pelos amigos que temos, muitos de nós, muita de mim, somos quase nada. mas teremos epitáfios no facebook.

e isso já é alguma coisa.

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publicado às 09:37


6 comentários

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De (des)Esperança a 19.03.2015 às 15:07

esta tocou-me demais...
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De M.J. a 19.03.2015 às 17:57

por algum motivo em especifico?
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De (des)Esperança a 19.03.2015 às 15:07

posso levar ?

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